Num cenário em que a reputação é um ativo estratégico para empresas e governos, entender como as narrativas moldam a percepção social tornou-se questão de governança, não apenas de comunicação. Sob essa premissa, o jornalista e consultor Deco Bancillon conduziu a palestra "Comunicação é Poder" no Fórum Internacional Nexus Zero. Ele defendeu que a disputa pelo poder não depende apenas de força militar ou econômica, mas da construção de legitimidade perante a opinião pública.
Promovido pelo Nexo Governamental XI de Agosto (projeto da Faculdade de Direito da USP), o Fórum reúne especialistas para debater política e segurança global, conflitos e comunicação. Na ocasião, Bancillon destacou que as instituições enfrentam hoje não apenas versões diferentes da realidade, mas operações de desinformação e ataques narrativos coordenados para minar reputações.
Nesse cenário, a comunicação deixa de ser mero instrumento de divulgação e torna-se a infraestrutura do próprio exercício do poder. A palestra partiu de uma provocação: o que faz um acontecimento mudar a história? Mais que os fatos em si, momentos decisivos geram rupturas ao alterar a confiança coletiva. Ao citar a quebra do banco Lehman Brothers e o impeachment de Dilma Rousseff, apontou que o elemento central nas duas crises foi a mudança brusca na percepção pública sobre a estabilidade financeira e a legitimidade governamental.
Políticas públicas dependem da confiança social para funcionar. Deco Bancillon comparou o fracasso comunicacional do Plano Collor ao êxito do Plano Real, cuja diferença residiu na construção de credibilidade pública. Um governo com boas ferramentas técnicas perde a capacidade de operar se não for visto como legítimo.
É preciso, contudo, diferenciar narrativa de manipulação. Para Deco, narrar não é inventar histórias, mas organizar fatos reais para a compreensão da sociedade. "São as narrativas que organizam o significado dos fatos e moldam a percepção", afirmou. No cenário internacional, conflitos contemporâneos e guerras também são disputas por legitimidade.
Analisando a postura de Donald Trump na operação militar contra a Venezuela, o consultor de comunicação argumentou que conflitos servem muitas vezes para reorganizar a agenda doméstica, fortalecer a liderança e mobilizar bases em momentos de fragilidade institucional.
Esse método de análise se aplica a diversos contextos como: as Guerras das Malvinas, do Golfo, Kosovo ou até crises corporativas. A lógica é constante. Um fato gera interpretações concorrentes. Estas moldam a percepção pública e daí nasce ou morre a legitimidade.
Para ilustrar, o jornalista citou o filme Mera Coincidência (Wag the Dog), onde um presidente forja uma guerra para abafar uma crise interna. A obra revela como conflitos são instrumentalizados para garantir sobrevivência política.
A disputa pela legitimidade é histórica. A queda dos czares russos resultou da perda de confiança gradual, e a famosa frase "Se não tem pão, que comam brioches", atribuída a Maria Antonieta, ilustra como certas percepções geram efeitos políticos duradouros, mesmo sem comprovação factual. Outra referência foi o cavalo de Troia, um dos primeiros usos da legitimidade como estratégia. Ele argumentou que os troianos aceitaram o presente por acharem ser uma oferenda religiosa, ilustrando como símbolos de confiança podem ser cooptados para fins políticos ou militares.
Em debate com a jornalista Fabíola Góes, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Bancillon frisou a mudança do ambiente informacional. "A desinformação passou a integrar ataques planejados para deslegitimar políticas e comprometer reputações". Uma narrativa distorcida pode abalar simultaneamente entidades, parceiros e até agendas regulatórias.
Sobre gestão corporativa, Deco distinguiu reputação de preparo para crises. "Ter marca forte não significa estar pronto para uma crise complexa. Isso exige governança, poder de decisão e organização da informação sob pressão. Cuidar da reputação difere de estar preparado para crises", alertou.
Um grande erro é achar que a comunicação começa na primeira nota oficial. A disputa narrativa inicia no exato momento do fato. Enquanto organizações tentam entender a situação, redes sociais, imprensa e adversários já produzem interpretações. "Não existe comunicação que salve uma decisão ruim", disse. Essa dinâmica exige inovar no monitoramento de riscos. Mais do que medir menções negativas, a inteligência reputacional deve rastrear a origem das narrativas, os grupos disseminadores, a velocidade de propagação e o risco de as discussões escalarem das redes para a imprensa, Congresso Nacional ou órgãos oficiais.
Para Deco, Ódio e esperança são os motores do engajamento digital. O ódio gera reações rápidas e violentas. Como exemplo, citou o filme No, sobre a campanha que derrotou Augusto Pinochet no Chile, em 1988, ao trocar o discurso do medo pela narrativa de esperança.
Para enfrentar a assimetria informacional, não há canal universal ideal. As organizações devem mapear os espaços adequados para cada disputa, evitando focar esforços em terrenos já dominados pelo adversário.
Ao encerrar, Deco Bancillon reforçou que a comunicação é elemento constitutivo do poder. Entender como narrativas geram legitimidade explica a ascensão e queda de governos, a longevidade de regimes e a gestão de crises. Dominar essa dinâmica é, hoje, competência vital para preservar a legitimidade em cenários de alta complexidade.

