Copa do Mundo de 2026 deve movimentar até 10 milhões de visitantes entre Estados Unidos, Canadá e México, especialistas defendem que informações como vacinação, alergias, medicamentos e exames também precisam acompanhar o paciente
O alerta recente da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) sobre os riscos sanitários associados ao aumento da circulação internacional de pessoas durante a Copa do Mundo de 2026 traz à tona uma discussão que vai além das doenças transmissíveis: a necessidade de que os dados de saúde acompanhem o paciente onde quer que ele esteja.
Com expectativa de receber até 10 milhões de visitantes ao longo do torneio, a competição será um dos maiores eventos de mobilidade humana do planeta. Em um cenário em que passaportes, documentos bancários e informações pessoais já podem ser acessados digitalmente em poucos segundos, especialistas questionam por que o histórico de saúde ainda permanece fragmentado entre hospitais, clínicas, laboratórios e diferentes sistemas.
“O mundo ficou mais conectado e as pessoas mais móveis, mas os dados de saúde continuam presos a instituições. Quando alguém viaja para outro estado ou país, informações fundamentais para o atendimento médico muitas vezes não acompanham o paciente“, afirma Lucas Santiago, cofundador da MYME. “Em uma emergência, ter acesso rápido ao histórico de vacinação, alergias, medicamentos de uso contínuo ou exames recentes pode fazer toda a diferença.”
Segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), pouco mais da metade dos países avaliados possui sistemas nacionais integrados de registros eletrônicos de saúde, demonstrando que a fragmentação das informações médicas ainda é uma realidade em grande parte do mundo.
Os impactos dessa desconexão vão além da experiência do paciente. Um estudo publicado no Journal of the American Medical Informatics Association identificou que 32% dos pacientes transferidos entre instituições de saúde realizaram exames duplicados, sendo que aproximadamente 20% dessas repetições não apresentavam necessidade clínica. Além do desperdício de recursos, a falta de acesso ao histórico pode atrasar diagnósticos, dificultar tratamentos e gerar retrabalho para profissionais de saúde.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da expansão dos serviços digitais relacionados à saúde. O mercado global de serviços de saúde movimentou cerca de US$ 12,9 trilhões em 2022 e segue impulsionado por tendências como interoperabilidade, inteligência artificial e modelos de cuidado centrados no paciente.Nesse contexto, cresce internacionalmente o debate sobre patient-owned data (em português, dados sob gestão do paciente ), conceito que defende que os dados de saúde devem estar sob controle do próprio cidadão e não apenas das instituições onde ele foi atendido.
“A saúde produz informações ao longo de toda a vida. O problema é que esses dados normalmente ficam espalhados em diferentes lugares, dificultando a construção de uma visão completa da jornada do paciente“, explica Santiago. “A tecnologia já permite que carreguemos praticamente toda a nossa vida digital no celular. O histórico de saúde deveria seguir a mesma lógica.”
A proposta da MYME é justamente centralizar essas informações em um único ambiente digital controlado pelo paciente. A plataforma permite reunir exames, laudos, histórico clínico, medicamentos, sintomas e registros de diferentes profissionais e instituições, oferecendo uma visão integrada da saúde ao longo do tempo.
Para a healthtech, eventos globais como a Copa do Mundo funcionam como um lembrete de que a continuidade do cuidado não deveria depender da localização geográfica do paciente. “Quando pensamos em viajar, dificilmente esquecemos o passaporte ou os documentos pessoais.Por que ainda aceitamos que nosso histórico de saúde fique para trás?”, conclui Santiago


