A nova montagem do grupo Andaime retrata a saga da família Silva desde a sua saída do interior de Minas Gerais até a sua chegada em Piracicaba, há mais de 60 anos
A trajetória da família que abandona sua cidade de origem em busca de uma vida melhor é comum a muitos brasileiros. Em uma história de 40 anos, o Grupo Andaime fez da cultura popular a sua matéria-prima, e agora reúne as memórias de família de seu fundador no espetáculo Massapê – Histórias de vida e arte de Antonio Chapéu, propondo uma dramaturgia afetiva, poética, ainda e sempre enraizada na cultura popular. A peça, com texto de Solange Dias e direção de Rogério Tarifa, está em cartaz no Sesc Belenzinho, com sessões sextas e sábados, às 19h e domingos, às 16h, somente até 14 de junho.
O espetáculo foi construído a partir da pesquisa histórico-cultural da saga da família Silva desde a sua saída do interior de Minas Gerais, onde era submetida a trabalhos análogos à escravidão, até a sua chegada em Piracicaba/SP, há mais de 60 anos, para trabalhar nos canaviais da cidade, vislumbrando um futuro melhor. A narrativa se constrói a partir de memórias reais e simbólicas de Chapéu, formando em cena um território híbrido entre o quintal de sua infância, a sala de memória e o palco de resistência. O tempo é simultâneo: presente e passado coexistem, convocando vozes, cantos, sombras e gestos que moldam o barro da existência, entrelaçando episódios de sua trajetória com referências à oralidade, à ancestralidade negra e às tradições do interior paulista, como a Folia de Reis, a música caipira e os saberes do ofício artesanal.
“Minha família foi sempre ligada à cultura popular, à catira, à congada e às festas de Reis. Então eu sempre dava um jeito de colocar alguma coisa ali no meio. Uma música, ou uma reza, ou uma dança. E agora num espetáculo que vai tratar só disso, dessa história, pra mim é um acontecimento. É como se eu juntasse tudo que eu fiz até agora num espetáculo só. Quase como a realização de um sonho”, afirma Antonio Chapéu.
Ainda que centrado na figura de Antonio Chapéu, o texto de Solange Dias se abre para outras presenças simbólicas, criando camadas sensíveis de representação. Os objetos em cena assumem função dramatúrgica e afetiva. A linguagem mistura o coloquial ao lírico, a conversa ao canto, o real ao imaginado. A dramaturgia acolhe intertextualidades e incorpora musicalidades, poesias e falas populares que ecoam a trajetória do protagonista, além de canções compostas por Juh Vieira, criadas especialmente para o espetáculo. Ao final, o espetáculo se desenlaça como um rito de continuidade: uma oferenda à memória e à arte como caminhos de transformação.
A peça surge, a partir desse entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa. “Acho que uma das minhas funções principais como diretor é conseguir amarrar toda essa liberdade de linguagem nesse campo poético de criação que a gente constrói. Temos uma equipe muito potente, que constrói junto comigo essa pesquisa que eu chamo de ato-espetáculo-musical”, explica o diretor Rogério Tarifa.
O reencontro do diretor com o grupo também coroa uma história antiga. “Dirigi a peça que marcou os 25 anos do grupo Andaime, e volto agora a dirigir o espetáculo que celebra os 40 anos desse grupo tão importante. É um espetáculo popular, poético, um resgate da memória brasileira, resgate de culturas que se insiste em tentar apagar, mas elas estão como sempre resistindo, resistindo e formando seres e construindo linguagem”, acrescenta Tarifa.
O público pode esperar um espetáculo rico em elementos cenográficos, música, histórias emocionantes e causos compartilhados. “É como se eu pegasse todas essas fagulhas que foram acesas durante esses 40 anos para apresentar de uma vez só. É uma coisa que está mexendo muito comigo, inclusive. Tem muita coisa que eu achava que sabia da história da minha família, da minha história, que eu só vim a descobrir agora nessa pesquisa. Quantas outras famílias também não passaram por isso? Por essa busca do ser humano de encontrar soluções melhores de vida. Eu fico imaginando que isso por si só já vai identificar com muita gente”, conclui Chapéu.
Sinopse:
Massapê surge da pesquisa do Grupo Andaime, das lembranças e memórias dos cortadores de cana e de suas famílias, remanescentes do povo negro, quando empreenderam uma travessia do interior de Minas Gerais para a lida nos canaviais de Piracicaba, interior de São Paulo. História de boa parte do povo brasileiro, a montagem é resultado do entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças da “família Silva”, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa.


