Estreia internacional da feira traz a brasileira Almeida & Dale, com Rubem Valentim e Paulo Pasta, e o vídeo de Luiz Roque pela argentina Isla Flotante, ao lado de Guillermo Kuitca, Kazuya Sakai e Edgardo Giménez, entre outros; cada galeria apresenta até dois artistas;
A ArPa Buenos Aires divulga as primeiras galerias já confirmadas para a edição que acontece de 16 a 20 de setembro na Casa Victoria Ocampo, em Palermo. A lista ainda vai crescer nas próximas semanas, até a formação final do grupo de expositores, e reúne por ora casas argentinas de diferentes perfis, ao lado das brasileiras Almeida & Dale e Martins&Montero. No Setor Principal, confirmadas até aqui, com os artistas que cada uma apresenta, estão:
- Calvaresi, com Luis Ouvrard e Daniel Leber. Ouvrard (1899-1988) pintou e esculpiu em Rosário e só fez sua primeira individual aos 70 anos. Leber dedica a produção ao estudo do símbolo, no cruzamento entre arte e mística.
- MAMAN Fine Art, com Guillermo Kuitca e Norberto Gómez. Kuitca ficou conhecido pelas séries das camas e dos labirintos, em que mapas e plantas de arquitetura invadem o espaço doméstico. Gómez (1941–2021) trabalhou a resina poliéster em esculturas de realismo cru que aludiam à tortura durante a ditadura argentina.
- Vasari, com Kazuya Sakai e Maria Simon. Sakai (1927–2001) passou pelo informalismo em Buenos Aires, pela abstração geométrica no México, onde editou a revista Plural com Octavio Paz, e pela paisagem em Dallas. Simon (1922–2009) concentrou boa parte da pesquisa no motivo da caixa, em chumbo, papelão e bronze.
- Almeida & Dale, com Rubem Valentim e Paulo Pasta. Valentim (1922–1991) construiu um vocabulário geométrico a partir dos emblemas do candomblé e da umbanda. Pasta é pintor conhecido pelo trabalho com a cor e pela lentidão que imprime à imagem.
- MC Galería, com Edgardo Giménez e Cynthia Cohen. Giménez veio da gráfica publicitária e é um dos nomes do pop argentino dos anos 1960, com obra que se espalhou pela pintura, pelo design e pela arquitetura. Cohen transita entre pop e hiper-realismo, com atenção aos estereótipos do feminino.
- Constitución e La Mala, com Ana Won e Cervio Martini. Won fundou em Tucumán o primeiro espaço de ateliê para artistas da província e ganhou o Prêmio Banco Central em 2022. Martini trabalha por tentativa e erro, em corpos antropomorfos sobre pedestais e desenhos de muito detalhe.
- COTT, com Verónica Gómez, cuja pintura cruza a metafísica de Spilimbergo com o terror gótico e os interiores da classe média argentina de meados do século XX. Em sua obra La niña Ocampo (óleo sobre tela, 35 × 27 cm, 2026), Verónica Gómez faz referência à arquitetura da Casa Victoria Ocampo, que será a sede da Arpa Buenos Aires, incluindo sua emblemática escadaria.
- Al Sur, com Jacques Bedel e Samanta Abugauch. Bedel é arquiteto e integrou o Grupo CAyC, com obra que circula entre escultura, pintura e fotografia digital. Abugauch pinta um realismo figurativo em que os animais servem de ponte para falar de vulnerabilidade e identidade feminina.
- Hache, com Santiago García Sáenz (1955–2006), em apresentação que integra o programa dos vinte anos da morte do artista. Sua pintura aproxima a tradição sacra da experiência autobiográfica e trata da intolerância política, religiosa e sexual e da crise da aids.
- Nora Fisch e PASTO, com Alfredo Londaibere e Déborah Pruden. Londaibere (1955–2017) foi figura central do grupo reunido em torno da galeria do Centro Cultural Rojas e dirigiu o espaço entre 1997 e 2002. Pruden pinta a partir da abstração latino-americana, com o branco da tela assumindo papel de destaque.
- Isla Flotante e Cosmocosa, com Pablo Accinelli e Luiz Roque pela primeira e Luis Frangella pela segunda. Frangella integrou a cena do East Village nova-iorquino nos anos 1980.
- Martins&Montero, com Hudinilson Júnior, nome central da arte brasileira das últimas décadas.
- Otto, com Daniel Stroomer, holandês que vive em Buenos Aires desde 2008. Ele veio do grafite dos anos 1990 e hoje faz esculturas de spray sobre madeira e metal a partir de fachadas inacabadas e estruturas em construção.
No Jardim de Esculturas, setor montado na área externa da casa, a Coral Gallery apresenta Roberto Vivo, a María Casado leva Federico Lanzi e a Cott mostra Luciano Giménez, que há quinze anos trabalha com a argila de Córdoba usada pela indústria de tijolos e a leva a escalas pouco comuns na cerâmica. Outras galerias ainda serão anunciadas para o setor. No terceiro piso, dedicado ao design, a Arkheion assina um projeto a partir do quarto de Victoria Ocampo. Os nomes anunciados dão a medida do recorte, com artistas históricos e contemporâneos dividindo a mesma casa.

A ArPa Buenos Aires acontece na Casa Victoria Ocampo. Foto: Fondo Nacional de las Artes (FNA)
Os brasileiros aparecem dos dois lados da fronteira. Almeida & Dale e Martins&Montero levam nomes que atravessam a arte brasileira do século XX, e o gaúcho Luiz Roque, que trabalha com vídeo, foi indicado por uma galeria argentina. A Isla Flotante abriu um escritório no Brasil e esteve na ArPa São Paulo em maio, assim como Calvaresi, Cott, Nora Fisch e Hache, quando as galerias argentinas formaram a maior representação estrangeira da feira.
Cada galeria apresenta até dois artistas, critério que a ArPa mantém desde a origem e que transforma os estandes em pequenas mostras. “As galerias vão mostrar um solo, um diálogo entre dois artistas ou um projeto curado. E mesmo sendo uma feira de proporções mais contidas, teremos outros setores além do Principal”, explica Camilla Barella, diretora-geral e fundadora da ArPa. A co-direção da edição argentina é de Flavia Masetto, consultora de arte que atua no mercado portenho.
Ao lado das obras, a ArPa monta uma agenda de conversas, encontros entre profissionais, atividades de formação e produção editorial sobre o mercado e a produção latino-americana.
A feira ocupa a Casa Victoria Ocampo, sede do Fondo Nacional de las Artes e Monumento Histórico Nacional desde 2022. Projetada por Alejandro Bustillo a pedido de Victoria Ocampo em 1928, a residência é apontada como a primeira casa racionalista de Buenos Aires e foi onde nasceu a revista Sur. A escolha repete o que a ArPa faz em São Paulo, onde a feira acontece na Mercado Livre Arena Pacaembu, e a realização da edição portenha contribui com o restauro em andamento no imóvel.

