Para a Garn, a identidade brasileira não está apenas no que vemos, mas também no que sentimos, que se reconhece e transforma-se. Ao desenvolver bolsas com design autoral em couro de pirarucu, a marca parte de uma matéria-prima brasileira para criar peças contemporâneas, colocando em pauta uma questão que vem ganhando espaço na moda: como transformar referências nacionais em objetos de desejo sem cair no óbvio?
A resposta passa por um movimento que ganhou força nos últimos anos, o brasilcore, mas que vai além de uma tendência estética. Cores, materiais, texturas, formas e símbolos associados ao Brasil vêm sendo revisitados pela moda sob novas perspectivas, revelando um interesse crescente por produtos que carregam identidade e, ao mesmo tempo, dialogam com um olhar contemporâneo.
Mais do que reproduzir elementos facilmente reconhecíveis, a nova leitura da estética brasileira está na capacidade de transformar referências em linguagem. Uma matéria-prima de origem nacional pode ganhar outra dimensão quando aplicada ao design; uma cor pode carregar um repertório cultural sem ser literal; uma técnica ou referência regional pode se tornar parte de uma peça que circula no universo da moda.
“Existe uma diferença entre usar uma referência brasileira e construir algo que tenha identidade brasileira. Para mim, o segundo caminho é muito mais interessante, porque permite que a cultura apareça de forma natural no design, sem precisar ser óbvia”, explica Giovana Arnaud, CEO e diretora criativa da Garn.
Na Garn, essa perspectiva se materializa principalmente no uso do couro de pirarucu, matéria-prima de origem brasileira que ganha uma nova leitura a partir de bolsas autorais. O material, reconhecido por sua textura e características singulares, deixa de ocupar apenas o lugar de elemento regional e passa a integrar uma proposta de moda pautada por design, estética e desejo.
Esse movimento acompanha uma transformação no próprio olhar sobre o que torna um produto desejável. Em um mercado cada vez mais interessado em originalidade e histórias por trás das peças, a origem pode ser um diferencial, especialmente quando está integrada à criação e não funciona apenas como argumento de comunicação.
“Durante muito tempo, existia uma preocupação em olhar para fora para entender o que era sofisticado ou desejável. Hoje, existe cada vez mais espaço para olhar para o que temos aqui e entender como transformar isso em algo contemporâneo e relevante para a moda”, afirma Giovana.
É nesse encontro entre origem e contemporaneidade que o brasilcore ganha novas possibilidades. Quando materiais, cores e referências brasileiras são reinterpretados pelo design, a identidade deixa de ser apenas um ponto de partida e passa a se tornar parte do desejo em torno de uma peça.
