Pela primeira vez a residência modernista que Victoria Ocampo mandou construir em Palermo, hoje um Monumento Histórico Nacional, receberá uma feira de arte com galerias da Argentina, do Brasil e dos EUA;
Fundada em 2022, a ArPa realiza sua primeira edição internacional de 16 a 20 de setembro, na Casa Victoria Ocampo, em Buenos Aires, Palermo, com galerias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos. A escolha do endereço repete o que a feira faz em São Paulo, com a ocupação de um edifício histórico protegido, de linhas despojadas e quase da mesma época.
A relação com a Argentina vem desde a primeira edição e se intensificou em 2025 e 2026, quando mais de 20 artistas argentinos foram apresentados em São Paulo por oito galerias do país, entre elas Isla Flotante, Calvaresi, COTT, Nora Fisch, Ruth Benzacar e Hache. No ano passado, a diretora-geral e fundadora da ArPa, Camilla Barella, esteve em Buenos Aires a convite da Secretaria de Cultura e da Meridiano, câmara argentina de galerias de arte contemporânea, para um evento sobre economia criativa e desenvolvimento de oportunidades entre os dois países.

Santiago García Sáenz apresentado pela Hache. Trabalho El cálculo, 1999. Óleo sobre tela. 139,5 x 190 cm. Fotografía Ignacio Iasparra. ©The Estate of Santiago García Sáenz
“Desde que a ArPa nasceu, imaginamos uma feira com identidade latino-americana e vocação para crescer além das fronteiras. Escolher Buenos Aires para a estreia internacional diz da relevância da cena artística daqui e do potencial de intercâmbio entre Argentina e Brasil”, afirma Camilla Barella. “É uma expansão que cultiva o local e que é, ao mesmo tempo, internacional e vizinha”, completa.
“Queremos um espaço em que galerias, artistas e colecionadores se encontrem de maneira próxima e significativa. Buenos Aires tem uma cena viva e um público que acompanha de perto o que se produz na região”, diz Flavia Masetto, diretora da ArPa Buenos Aires. A edição tem o apoio da Meridiano.
Uma feira para se envolver e conhecer as obras de perto
Cada galeria apresenta um ou dois artistas, com projetos inéditos e seleção por convite, critério que a ArPa mantém desde a origem e que transforma cada participação em uma pequena exposição. O visitante encontra assim uma experiência qualificada, com tempo para percorrer as obras com calma e conversar com artistas e galeristas.
“As galerias vão mostrar um solo, um diálogo entre dois artistas ou um projeto curado”, explica Barella. Além do Setor Principal, a programação tem um Jardim de Esculturas, que aproveita a área externa da casa, e um núcleo dedicado ao design, no terceiro piso, e reúne no mesmo endereço artistas modernos e contemporâneos.
No Jardim de Esculturas, a Coral Gallery, dos Estados Unidos, apresenta Roberto Vivo, a María Casado leva Federico Lanzi e a COTT mostra Luciano Giménez, que há quinze anos trabalha com a argila de Córdoba usada pela indústria de tijolos e a leva a escalas pouco comuns na cerâmica. No terceiro piso, a Arkheion assina um projeto a partir do quarto de Victoria Ocampo.
Os brasileiros aparecem dos dois lados da fronteira. Almeida & Dale e Mendes Wood DM levam artistas que atravessam a arte do país do século XX até a produção de hoje, e o gaúcho Luiz Roque, que trabalha com vídeo, foi convidado pela argentina Isla Flotante, que abriu um escritório no Brasil e participou da última edição paulistana.

Trabalho de Rubem Valentim, artista que será apresentado pela Almeida & Dale. Foto: Sergio Guerini
Ao lado das obras, a feira monta uma agenda de conversas, encontros entre profissionais, atividades de formação e produção editorial sobre o mercado e a produção latino-americana.
A casa que escandalizou os vizinhos em 1928
Quem chega à Rufino de Elizalde, 2831 encontra um dos circuitos mais visitados de Buenos Aires, entre museus, embaixadas e os jardins de Carlos Thays, o paisagista francês que redesenhou os grandes parques da cidade e traçou o Barrio Parque em 1912.

Foto da escada: Carolina Luna
O endereço tem história. Em 1928, a casa de volumes brancos e sem ornamento que Victoria Ocampo encomendou a Alejandro Bustillo destoou das mansões afrancesadas
da vizinhança. Houve protesto dos moradores e atrito com a municipalidade. Ela costuma ser apontada como a primeira residência racionalista da cidade e uma das primeiras da América Latina, com paredes brancas, planos retos e pouca decoração.
Aberto ao público desde 2005 como sede cultural do Fondo Nacional de las Artes (FNA), organismo público argentino criado em 1958 para fomentar e financiar a produção artística e cultural do país, o imóvel recebeu a declaração de Monumento Histórico Nacional em 2022.
Em São Paulo, a ArPa acontece anualmente na Mercado Livre Arena Pacaembu, inaugurada em 1940 e, à época, a maior praça de esportes da América Latina. As duas construções nasceram com doze anos de diferença e partilham a mesma economia de formas, com geometria limpa e ornamento reduzido.
“A ArPa carrega a ideia de que o visitante veja obras cuidadosamente selecionadas e veja bem. Uma casa com salas e jardim entrega isso melhor que qualquer pavilhão, então a Casa Victoria Ocampo entra como parte da proposta, mais do que como cenário”, explica Barella. Segundo ela, edificações históricas impõem desafios que vão do projeto de montagem à circulação do público.
A montagem segue protocolo de impacto zero supervisionado pelo FNA, e a realização da feira no local contribui com o restauro em andamento, iniciado em 2016 com pesquisa em arquivos e levantamentos técnicos. Durante os cinco dias, o fundo fará visitas guiadas que integram o valor patrimonial do imóvel ao programa expositivo.
Foi ali que nasceu, em 1931, a revista Sur, que em setembro de 1942 dedicou um número inteiro às letras brasileiras, com Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Rachel de Queiroz e Portinari. Insatisfeita com o primeiro estudo de Bustillo, Ocampo chegou a encomendar um projeto a Le Corbusier, para outro terreno, que nunca saiu do papel. O arquiteto suíço visitou a residência já construída em 1929 e elogiou o resultado.
Conheça as galerias já confirmadas e seus principais destaques
A lista de expositores ainda vai crescer até a formação final do grupo. No Setor Principal, confirmadas até aqui, com os artistas que cada uma apresenta, estão:
- Al Sur Gallery, com Jacques Bedel e Samanta Abugauch. Bedel é arquiteto e integrou o Grupo CAyC, com obra que circula entre escultura, pintura e fotografia digital. Abugauch pinta um realismo figurativo em que os animais servem de ponte para falar de vulnerabilidade e identidade feminina.
- Almeida & Dale, com Rubem Valentim e Paulo Pasta. Valentim (1922–1991) construiu um vocabulário geométrico a partir dos emblemas do candomblé e da umbanda. Pasta é pintor conhecido pelo trabalho com a cor e pela lentidão que imprime à imagem.
- Calvaresi, com Luis Ouvrard e Daniel Leber. Ouvrard (1899–1988) pintou e esculpiu em Rosário e só fez sua primeira individual aos 70 anos. Leber dedica a produção ao estudo do símbolo, no cruzamento entre arte e mística.
- Constitución e La Mala, com Ana Won e Cervio Martini. Won fundou em Tucumán o primeiro espaço de ateliê para artistas da província e ganhou o Prêmio Banco Central em 2022. Martini trabalha por tentativa e erro, em corpos antropomorfos sobre pedestais e desenhos de muito detalhe.
- COTT, com Verónica Gómez, cuja pintura cruza a metafísica de Spilimbergo com o terror gótico e os interiores da classe média argentina de meados do século XX. Em La niña Ocampo (óleo sobre tela, 35 × 27 cm, 2026), a artista faz referência à arquitetura da casa que recebe a feira, incluindo sua emblemática escadaria.
- Hache, com Santiago García Sáenz (1955–2006), em apresentação que integra o programa dos vinte anos da morte do artista. Sua pintura aproxima a tradição sacra da experiência autobiográfica e trata da intolerância política, religiosa e sexual e da crise da aids.
- Isla Flotante e Cosmocosa, apresentam Luis Frangella, que integrou a cena do East Village nova-iorquino nos anos 1980, Pablo Accinelli e Luiz Roque.
- MAMAN Fine Art, com Guillermo Kuitca e Norberto Gómez. Kuitca ficou conhecido pelas séries das camas e dos labirintos, em que mapas e plantas de arquitetura invadem o espaço doméstico. Gómez (1941–2021) trabalhou a resina poliéster em esculturas de realismo cru que aludiam à tortura durante a ditadura argentina.
- MC Galería, com Edgardo Giménez e Cynthia Cohen. Giménez veio da gráfica publicitária e é um dos nomes do pop argentino dos anos 1960, com obra que se espalhou pela pintura, pelo design e pela arquitetura. Cohen transita entre pop e hiper-realismo, com atenção aos estereótipos do feminino.
- Mendes Wood DM, com Leticia Ramos. Artista e pesquisadora, ela investiga os efeitos de fenômenos geológicos e climáticos sobre o imaginário e constrói paisagens e fábulas em fotografia, instalação, filme e performance, com maquetes e efeitos especiais analógicos. Tem obras na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Instituto Moreira Salles.
- Nora Fisch e PASTO, com Alfredo Londaibere e Déborah Pruden. Londaibere (1955–2017) foi figura central do grupo reunido em torno da galeria do Centro Cultural Rojas e dirigiu o espaço entre 1997 e 2002. Pruden pinta a partir da abstração latino-americana, com o branco da tela assumindo papel de destaque.
- OTTO Galería, com Daniel Stroomer (Nasepop), holandês que vive em Buenos Aires desde 2008. Ele veio do grafite dos anos 1990 e hoje faz esculturas de spray sobre madeira e metal a partir de fachadas inacabadas e estruturas em construção.
- Vasari, com Kazuya Sakai e Maria Simon. Sakai (1927–2001) passou pelo informalismo em Buenos Aires, pela abstração geométrica no México, onde editou a revista Plural com Octavio Paz, e pela paisagem em Dallas. Simon (1922–2009) concentrou boa parte da pesquisa no motivo da caixa, em chumbo, papelão e bronze.
- Galeria Francisco Traba com Fermín Eguia (1942–2024) pintor, desenhista e aquarelista argentino, reconhecido por uma produção marcada pelo imaginário fantástico, pelo humor e por elementos grotescos. Desenvolveu uma linguagem que ele próprio definia como “romântico grotesco”, combinando referências da história da arte, da cultura popular e do cotidiano.
Pesquisa com o mercado
A ArPa ouve os profissionais do mercado de arte para conhecer interesses, expectativas e desafios do circuito latino-americano. O questionário está aberto e as respostas são divulgadas de forma agregada, sem identificação individual.. Para responder: https://go.forms.app/
Sobre a ArPa
Fundada em 2022 por Camilla Barella, a ArPa completou em 2026 sua 5ª edição consolidada como uma das principais referências do circuito de arte contemporânea da América Latina. Opera com um modelo curado por setores, galerias selecionadas por convite e projetos inéditos como critério de participação. Reúne colecionadores, representantes de acervos institucionais, curadores, artistas, galeristas, consultores de arte, estudantes e público em geral numa expografia que favorece a integração entre visitantes e galerias. A ArPa São Paulo realiza-se anualmente na Mercado Livre Arena Pacaembu, e os preparativos para a 6ª edição, em 2027, já estão em curso.
Mais informações: arpa.art | Instagram: @arpa__art
ArPa Buenos Aires
Quando: 16 a 20 de setembro de 2026
Local: Casa Victoria Ocampo, Palermo, Buenos Aires
Ingressos: https://arpabuenosaires.art/


