Por anos, o mapa de delivery no Brasil foi desenhado de cima para baixo: investimento, logística e tecnologia chegaram primeiro às capitais, enquanto milhares de cidades de pequeno e médio porte ficaram esperando a sua vez. Agora, esse interior, por muito tempo deixado à margem da digitalização do consumo, passou a atrair plataformas regionais que enxergam nesses municípios um mercado ainda pouco explorado.

O movimento acompanha a consolidação do setor no Brasil. Segundo a Abrasel, as vendas de delivery atingiram pico de 50% em 2020, no auge das restrições sanitárias (antes da pandemia representavam 26% das vendas), e não recuaram com o fim do isolamento, consolidando-se como hábito de consumo. Dados da Statista projetam que a receita do mercado de entrega de comida online no país alcance US$ 21,18 bilhões em 2025, com taxa de penetração de aproximadamente 38,8% da população (mais de 85 bilhões de brasileiros). Levantamento da mesma consultoria referente a 2020 apontou ainda que o Brasil concentrava cerca de 48,77% dos pedidos de delivery da América Latina, à frente de México (27,07%) e Argentina (11,85%).

O perfil de quem está por trás desses pedidos ajuda a explicar o avanço sobre cidades menores. De acordo com dados do governo federal de agosto de 2024, o país contava com mais de 1,37 milhão de estabelecimentos ativos no setor de alimentação, sendo aproximadamente 65% classificados como microempreendedores individuais (MEI). É uma base majoritariamente formada por pequenos negócios, perfil que predomina no interior e que constitui o público-alvo das plataformas regionais.

Entre os exemplos desse movimento está o Mais Delivery, aplicativo voltado a municípios fora dos grandes centros, fundados por Gabriel Sebastian Ramirez e pelo sócio Oscar Alcantara Junior. A operação tem origem em 2016, quando a G22 TI, empresa de tecnologia de Ramirez, identificou demanda por sistemas de entrega em cidades onde as grandes plataformas ainda não atuavam. "Havia demanda por delivery em cidades que ainda não eram atendidas pelas grandes plataformas", afirma Ramirez. Em seguida, a G22 TI passou a desenvolver sistemas sob medida, com marca própria para cada cliente. Esse modelo, ao reunir mais de 50 sistemas distintos ao fim de 2018, tornou-se inviável de manter com uma equipe enxuta. A resposta foi unificar tudo em um único aplicativo compartilhado por administradores em diferentes cidades, lançado em fevereiro de 2019 e ampliado para segmentos além da alimentação, como mercados, farmácias e pet shops.

O arranjo adotado é o de licenciamento. Em vez de operar cada cidade a partir de uma estrutura central, a tecnologia e a marca são administradas por empreendedores locais, responsáveis por cadastrar estabelecimentos, ativar entregadores e cuidar do relacionamento com o comércio. Na prática, cada cidade que entra na rede mobiliza mão de obra local, dos comerciantes aos motoboys que realizam as entregas, transformando a operação em fonte de trabalho e renda dentro do próprio município. O racional é antigo no varejo brasileiro e tem sido apontado por plataformas do interior como forma de reduzir o custo da expansão geográfica e aproximar a operação do mercado local, ponto de atrito frequente das plataformas nacionais em cidades menores.

Segundo dados informados pela própria empresa, o Mais Delivery opera hoje em mais de 170 municípios, reúne mais de 15 mil estabelecimentos parceiros e processa volume mensal superior a R$44 milhões em pedidos. A distribuição se dá a partir de um conjunto amplo de cidades pequenas e médias, padrão distinto do observado nas plataformas líderes do setor, mais concentradas em grandes centros.

O caso reflete um movimento mais amplo no mercado de tecnologia. À medida que as capitais se aproximam da saturação competitiva, o crescimento futuro do delivery passa a depender da capacidade de operar em municípios menores. Há também um efeito local: por trás de cada pedido há um restaurante de bairro que ganha vitrine, um entregador que encontra renda perto de casa e um morador que passa a ter, no próprio celular, opções que antes pareciam exclusivas das grandes cidades. "Levamos para o interior o que a capital sempre teve, mas que por muito tempo deixou essas cidades de fora. Cada município, por menor que seja, é digno de tecnologia e inovação", afirma Ramirez.

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