Entre os destaques da ArPa 2026, que acontece entre 27 e 31 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu, estão galerias internacionais que chegam a São Paulo com projetos inéditos concebidos especificamente para a feira. Elas marcam presença tanto no Setor Principal, o maior da feira e dedicado a mostras coletivas e individuais, quanto no Setor UNI, voltado exclusivamente a exposições solo e com curadoria assinada pela consultora colombiana Ana Sokoloff, referência internacional no circuito de arte latino-americana.
“A abordagem curatorial cria um ambiente mais atento ao diálogo entre as obras, pesquisas, artistas e diferentes públicos”, afirma Camilla Barella, fundadora e diretora da ArPa. Para Cristina Candeloro, diretora de relacionamento institucional da feira, o interesse de galerias de diferentes regiões reflete um processo de consolidação do Brasil como mercado em expansão. “O Setor Principal reúne projetos coletivos e individuais que evidenciam a diversidade da produção artística contemporânea”, diz ela.
A Isla Flotante e a Calvaresi chegam juntas ao Setor Principal com um projeto que cruza gerações e geografias. A proposta reúne duas artistas: a argentina Dignora Pastorello (1913-2001), figura enigmática da arte do século XX e a argentina Mariela Scafati.

Rambla (Punta Del Este), sin fecha.
Óleo sobre hardboard, 40 x 50 cm.
Foto: divulgação
Pastorello é pouco conhecida fora do circuito argentino, em parte por conta da fragmentação de seu arquivo. Deixou uma pintura marcada por cenas domésticas e paisagens onde convivem presenças sobrenaturais. Seres, espíritos, figuras suspensas em gestos mínimos aparecem como algo absolutamente natural dentro de suas composições. Ela observava a realidade com obstinação, mas o que devolvia ao espectador vinha sempre levemente alterado, carregado de uma atmosfera que transforma o familiar em mistério.
Scafati construiu ao longo de décadas uma obra abstrata de campos cromáticos intensos, com superfícies que oscilam entre a poesia arquitetural e o gesto sutil. “Juntas, oferecem uma leitura expandida da pintura contemporânea latino-americana, onde o privado e o coletivo, o real e o imaginário se interrompem para abrir novas formas de ver”, descreve a equipe que representa as duas galerias.
Também no Setor Principal, as galerias COTT e Nora Fisch dividem o estande com dois artistas cujas práticas têm em comum uma relação intensa com a natureza e com o corpo.

Laminated polyester resin and two-coat paint, 103 x 83 x 17 cm. (à dir.).
Fotos: divulgação
A COTT traz Andrés Paredes, nascido em Misiones, província do norte argentino que faz fronteira com o Brasil. Suas pinturas são feitas com terra vermelha da região e constroem um universo em que memória e ficção habitam o mesmo espaço: frutas, plantas, corpos e criaturas fantásticas coexistem entre a realidade e o sonho. No centro dessa cosmologia está o diálogo entre tradições guaranis e os resquícios da cultura jesuítica que ainda marcam aquele território, algo que Paredes não aborda de forma histórica, mas como memória territorial viva. Parte das obras está sendo finalizada no Brasil nas semanas que antecedem a feira.
A Nora Fisch apresenta Miguel Harte, que emergiu na cena portenha dos anos 1980 e 1990, geração central para o desenvolvimento da arte contemporânea argentina. Harte trabalha com biomorfismo e visceralidade: superfícies que aludem ao corpo, à pele e à terra. Usa pintura automotiva, esmaltes e resinas para criar acabamentos impecáveis que, ao mesmo tempo, evocam algo orgânico e em mutação. A seleção para a ArPa privilegia a vertente mais abstrata de sua produção, com esculturas e obras de parede que vão de peças manipuláveis a trabalhos de grande impacto.
A Coral Gallery, sediada em Miami, está na ArPa pelo segundo ano consecutivo e traz um formato pouco usual: o estande se transforma ao longo da feira. Nos três primeiros dias, o argentino Lucas Pertile ocupa o espaço; nos dois últimos, a também argentina Chiara Baccanelli assume. “Ambos compartilham uma sensibilidade forte com a cor e a atmosfera, mas suas linguagens visuais são muito diferentes”, justifica a galeria. “Dar a cada um um momento solitário na feira é uma forma de o público entender seus trabalhos.”

Pertile, nascido no Chaco e hoje baseado em Buenos Aires, cria uma pintura que se move entre memória, paisagem e fantasia. O norte argentino aparece em sua obra como fonte de cor e intensidade: azuis profundos das noites de verão, laranjas e vermelhos do calor do Chaco. Suas composições têm algo de onírico, como se a realidade e a imaginação fossem pintadas com o mesmo pincel.
Baccanelli trabalha em ateliês no Lago de Como e no Uruguai e produz óleos em camadas que criam passagens densas e abertas numa mesma tela. Sua obra parte da observação da natureza para chegar a uma abstração imersiva, na qual paisagens e formas orgânicas se dissolvem em campos de cor movidos por emoção e memória. Tem obras em coleções públicas, como o Museu MAC da Sardenha.
A Carmen Araujo Arte, galeria de Caracas, participa da ArPa pela primeira vez com um projeto que coloca em diálogo dois pintores venezuelanos: Augusto Villalba (Caracas, 1961) e Juan Iribarren (Caracas, 1956).
Pertile, nascido no Chaco e hoje baseado em Buenos Aires, cria uma pintura que se move entre memória, paisagem e fantasia. O norte argentino aparece em sua obra como fonte de cor e intensidade: azuis profundos das noites de verão, laranjas e vermelhos do calor do Chaco. Suas composições têm algo de onírico, como se a realidade e a imaginação fossem pintadas com o mesmo pincel.
Baccanelli trabalha em ateliês no Lago de Como e no Uruguai e produz óleos em camadas que criam passagens densas e abertas numa mesma tela. Sua obra parte da observação da natureza para chegar a uma abstração imersiva, na qual paisagens e formas orgânicas se dissolvem em campos de cor movidos por emoção e memória. Tem obras em coleções públicas, como o Museu MAC da Sardenha.
A Carmen Araujo Arte, galeria de Caracas, participa da ArPa pela primeira vez com um projeto que coloca em diálogo dois pintores venezuelanos: Augusto Villalba (Caracas, 1961) e Juan Iribarren (Caracas, 1956).

Villalba apresenta uma série de pequenos óleos sobre madeira, abstratos, em que texturas e cores contrastantes emergem de uma pincelada leve e sutil. Sua pintura opera na ambiguidade entre figura e fundo, fazendo com que elementos gráficos se destaquem sem que a tensão se dissolva. O resultado é uma espécie de registro da memória: fragmentos visuais, vestígios de momentos que permanecem inscritos na superfície.
Iribarren, pintor e desenhista cuja aproximação à fotografia como recurso experimental é amplamente reconhecida na Venezuela, traz uma série de imagens digitais em preto e branco chamada “Retratos de pinturas”. São retratos fragmentários de suas próprias telas fotografadas no ateliê, com atenção especial aos efeitos de sombra e aos fenômenos de luz que ocorrem no espaço de trabalho. As fotografias de Iribarren permitem uma leitura diferente das pinturas de Villalba, enquanto estas emprestam às imagens a possibilidade de funcionar também como abstrações de um espaço real.
No Setor UNI, a Galeria Hache, de Buenos Aires, chega à ArPa pela segunda vez com um projeto de peso histórico: uma mostra individual dedicada a Santiago García Sáenz (1953-2006), em comemoração aos 20 anos de sua morte. García Sáenz foi uma das vozes mais singulares da pintura argentina, e seu trabalho sempre escapou das categorias disponíveis.

Série Cristo en los enfermos 1995. Oleo sobre tela 55x70cm.
Foto: divulgação
Gay, criado em família católica de classe alta, García Sáenz contraiu HIV e enfrentou a própria morte de maneira que transformou radicalmente sua produção. A fé não era um tema abstrato: era o terreno onde conviviam desejo, culpa, exclusão e resistência. As pinturas transitam entre iconografia católica e experiência masculina gay, entre devoção popular e urgência política, sem resolver essas contradições. É exatamente aí que reside sua força.
Obras do artista integram coleções do Museu Guggenheim (Nova York), do Centre Georges Pompidou (Paris) e dos Museus do Vaticano, entre outras instituições. A seleção para a ArPa inclui obras de maior porte e também trabalhos em papel da série de 1979, como ponto de entrada para novos colecionadores.
Também no Setor UNI, a Galeria PérezPuig, de San Juan, apresenta uma mostra solo de Kiván Quiñones Beltrán, artista de 28 anos que a diretora Raquel PerezPuig define como um criador de mundos. Raquel fundou a galeria em 2018 depois de oito anos documentando a cena artística de Porto Rico como fotógrafa, e chegou ao papel de galerista com formação em arquitetura e um olhar muito particular para o espaço e a materialidade.
Quiñones Beltrán trabalha com pintura, têxteis, objetos encontrados e construção espacial. Sua série “Después de la alegoría” usa guache e têmpera sobre poliéster misturado com fibras sintéticas, pigmentos e materiais descartados. Esses elementos não são apenas suportes: carregam histórias e resíduos. Os laranjas vivos que dominam as obras não são escolha estética casual. Trazem o calor caribenho, a tensão, a intensidade espiritual de uma prática em que o ritual é ideia central, não como repetição do passado, mas como algo vivo que emerge do gesto, do material e do ambiente.
O título da série retoma a alegoria da caverna de Platão por um ângulo inesperado: não trata de quem ainda está dentro, mas de quem já saiu. “Em vez de sugerir uma chegada, o trabalho evoca uma passagem, uma revelação do subconsciente e o começo de um caminho para um destino desconhecido”, explica Raquel. Para ela, apresentar o trabalho na ArPa é também um teste de ressonâncias. “As obras pensam o Caribe, a afroespiritualidade, a memória e o ritual. A ideia é ver como o público brasileiro se relaciona com isso, como essas espiritualidades começam a conversar, abrindo um diálogo entre Porto Rico e Brasil, entre a memória caribenha e a energia afrodiaspórica.”




