O tempo como matéria-prima.

Ao apresentar a coleção masculina Fall/Winter 2026, a Acne Studios não celebrou apenas uma nova temporada — celebrou três décadas de construção estética. Sob direção criativa de Jonny Johansson, a marca revisita sua própria história para discutir algo maior: como o tempo transforma códigos jovens em herança cultural.

O ponto de partida é o denim. Contudo, não como tendência passageira, mas como identidade estrutural. Ao longo de 30 anos, a marca explorou o jeans como superfície de experimentação, memória e subcultura. Agora, essa exploração atinge maturidade. O denim deixa de ser símbolo juvenil isolado e assume posição quase aristocrática dentro do guarda-roupa masculino.

Assim, a coleção não olha para o passado com ironia — mas com reverência.


Denim como herança

O retorno da silhueta reta 1996 sinaliza essa intenção. Embora levemente atualizada, ela mantém proporções originais, preservando integridade histórica. Além disso, lavagens que simulam desgaste, reparos visíveis e intervenções trompe l’oeil criam a ilusão de peças que atravessaram décadas.

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Essa escolha revela algo estratégico: a juventude não está na novidade, mas na permanência. Quando uma peça atravessa subculturas e, posteriormente, alcança a alta sociedade, ela se transforma em código estabelecido.

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Consequentemente, o jeans deixa de ser democrático para tornar-se distintivo.


Aristocracia contemporânea

A coleção propõe uma ideia provocativa: uma nova nobreza formada por afinidade cultural, não por linhagem. Em vez de brasões, aparecem foulards de seda amarrados ao pescoço, alfaiataria ajustada e casacos longilíneos de lã precisa.

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Além disso, a construção das peças demonstra maturidade técnica. Blazers de abotoamento duplo surgem mais acinturados, calças aparecem levemente flare, e há referências discretas aos anos 1970 — não como nostalgia literal, mas como remix consciente.

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O vestir assume tom cerimonial. Contudo, essa formalidade é interrompida por elementos esportivos e texturas vividas, criando tensão entre refinamento e casualidade.


Reverência e ruptura

Há um jogo constante entre respeito e subversão. Camisas de popeline amassadas e malhas com aparência usada contrastam com cashmere sobreposto e argyle intencionalmente imperfeito.

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Jaquetas de veludo acolchoado dialogam com alfaiataria risca-de-giz, enquanto silhuetas como a Harrington, o flight jacket em suede e o casaco inspirado no Loden surgem reinterpretadas.

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Essa alternância constrói múltiplas personas dentro da mesma coleção. O homem Acne não é fixo — ele oscila entre tradição e experimentação.


Couro e superfície

Se o denim representa memória, o couro simboliza resistência. Aplicado em bolsos, acabamentos ou looks completos, ele introduz textura e profundidade visual.

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Além disso, a presença do couro reforça a ideia de peça que envelhece com dignidade. Tanto o jeans quanto o couro compartilham essa característica: quanto mais usados, mais personalidade adquirem.

Portanto, o tempo não deteriora — ele valoriza.


Acessórios como âncoras

Os acessórios funcionam como estabilizadores conceituais. A bolsa Camero reaparece como elemento recorrente, enquanto óculos evocam silhuetas aviador dos anos 1970.

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Cintos remetem a ferragens vintage e lenços de seda surgem repetidamente — ora sob malhas, ora sob camisas abertas — consolidando-se como objeto de desejo.

Calçados seguem lógica semelhante: Oxfords e loafers aparentam desgaste proposital, como se carregassem história, enquanto botas ajustadas ao tornozelo apresentam bico levemente elevado, reforçando identidade estilística.


Juventude permanente

Em síntese, a coleção Fall/Winter 2026 captura um momento de clareza para a Acne Studios. Após 30 anos, a marca reconhece o que deve preservar, o que deve refinar e o que pode ser reinterpretado.

Ao transformar denim em aristocracia e nostalgia em conhecimento acumulado, a grife reafirma seu lugar no cenário global. A subversão continua presente — mas agora amadurecida.

E talvez essa seja a maior conquista: permanecer jovem sem negar o próprio legado.

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