Escultura em bronze concebida para o Athene Garden, no Litoral Norte Catarinense, traduz elementos observados no local e integra arte, arquitetura e biodiversidade.
A presença de um casal de corujas-buraqueiras no terreno do Athene Garden, primeiro empreendimento da FHaus em Camboriú (SC), inspirou “Refúgio”, nova obra do artista visual Walmor Corrêa. Desenvolvida ainda na fase de concepção do projeto, a escultura em bronze foi pensada em diálogo com a arquitetura e a paisagem da região e ocupará o espelho d’água do hall principal. Com trabalhos apresentados na Bienal de São Paulo, no MAM-SP e no Instituto Tomie Ohtake, o artista leva ao Athene a investigação sobre arte, ciência e natureza que marca sua trajetória.
O processo criativo da peça começou quando Walmor visitou o terreno, localizado no bairro planejado Colinas de Camboriú, percorreu a área e observou as corujas e a forma como ocupavam aquele ambiente de oásis – localizado há poucos minutos da turbulenta Balneário Camboriú. A postura vigilante de uma das aves e a proximidade entre o casal chamaram a atenção do artista e orientaram a composição da escultura.
Durante a mesma visita, Walmor identificou líquens róseos nos troncos das árvores. A partir desses elementos, decidiu que a obra reuniria as aves, a referência cromática dos líquens, a pedra da região e a água do hall em uma criação concebida especificamente para aquele lugar.
A ideia de se pensar em arte combinada ao bem-estar acompanha uma mudança mais ampla na forma como o mercado imobiliário aborda a experiência de morar. Um relatório publicado pelo Global Wellness Institute em 2026 estima que o mercado mundial de imóveis voltados a esse conceito alcançou US$ 876 bilhões em 2025, após crescer cerca de 20% ao ano desde 2019, e poderá chegar a US$ 1,8 trilhão até 2030.
Entre as principais oportunidades apontadas pelo estudo estão os ambientes sensoriais apoiados na neuroarquitetura e nas artes. O relatório prevê a ampliação do uso de instalações multissensoriais, arte pública, design biofílico e espaços imersivos para estimular envolvimento, significado e diferentes dimensões do bem-estar. O movimento desloca o foco de uma lista de amenidades isoladas para a qualidade da experiência construída e para a relação das pessoas com os espaços que habitam.
“Minha obra foi pensada desde o início em diálogo com a arquitetura, o paisagismo e a experiência de quem vai ocupar o Athene. Não como uma decoração acrescentada ao final, mas como parte da identidade e da história daquele terreno”, destaca o artista.
Uma obra que só poderia existir ali
A concepção da obra parte da relação direta entre o casal de corujas-buraqueiras e o terreno onde o Athene Garden será construído. A escultura será instalada sobre uma coluna de pedra que remete a um tronco de árvore, aproximando a representação das aves do ambiente que inspirou o trabalho. “Meu projeto, nesse sentido, é simples e potente. Confeccionada em bronze, a peça terá aproximadamente 40 centímetros de altura, tamanho um pouco maior que o seu referente. Já a base, com cerca de 1,5 metro, elevará o conjunto à proporção de um adulto, convidando o público a dialogar poeticamente com a imagem”, descreve Walmor.
Uma das corujas será representada mais altiva e voltada para a lateral, em referência ao comportamento de sentinela observado pelo artista. A outra aparecerá de frente para o público, como se estivesse aninhada no companheiro. Unidas pelo tórax, as aves formam a imagem de um casal em repouso e vigilância.
A materialidade também participa da narrativa. “De um lado, na representação das corujas em bronze, a mimese e a minúcia, a delicadeza e a airosidade, tão características da minha poética; de outro, na feitura da base, cinzelada em pedra da região, a rusticidade e a força da natureza”, explica o artista.
Os líquens róseos das árvores nativas observados durante a visita ao Colinas acrescentaram uma segunda referência local. Sensíveis às alterações atmosféricas e utilizados no biomonitoramento da qualidade do ar, esses organismos inspiraram os tons que vêm sendo incorporados ao peito das aves. Dentro do espelho d’água, o conjunto reunirá a precisão figurativa do bronze, a rusticidade da pedra, a cor encontrada nos troncos e os reflexos produzidos pela água.
O nome científico da coruja-buraqueira, Athene cunicularia, também ajuda a explicar o nome de batismo do empreendimento. “Athene remete à deusa grega Atena, associada à sabedoria, às artes e à estratégia e tradicionalmente representada pela coruja. Já cunicularia faz referência ao hábito da espécie de construir e ocupar tocas no solo, utilizadas como abrigo e local de reprodução. Para nós, essa combinação traduz a forma como a FHaus entende o projeto: um empreendimento que parte da inteligência do território, valoriza a presença da natureza e cria espaços de convivência com significado. Foi dessa relação entre observação do lugar, imaginário cultural e criação artística que nasceram a peça e também o empreendimento”, afirma Thomas Barichello Fischer, sócio da FHaus.
Artista
Natural de Florianópolis e radicado em São Paulo, Walmor construiu uma produção reconhecida pela aproximação entre desenho, escultura, conhecimento científico e imaginário popular. Sua trajetória inclui a 26ª Bienal Internacional de São Paulo, o Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo e exposições em instituições como Instituto Tomie Ohtake, Sesc Pompeia, Museu de Arte do Rio e Fundação Iberê Camargo, além de mostras e residências no exterior.
Em 2026, o artista apresentou em Santa Catarina “Bromeliário”, exposição desenvolvida a partir de cinco anos de pesquisa sobre a biodiversidade da Mata Atlântica e o legado do botânico catarinense Raulino Reitz. Com mais de 40 trabalhos, entre pinturas, gravuras, objetos tridimensionais e esculturas, a mostra reforçou uma investigação que também atravessa “Refúgio”: a tradução de espécies, relações ecológicas e referências científicas para a linguagem artística.
Arte incorporada desde a concepção
“Queríamos que a arte participasse da identidade do Athene desde o início, e não fosse escolhida ao final apenas para preencher um espaço. Walmor partiu daquilo que encontrou no terreno e criou uma obra que só faria sentido ali. ‘Refúgio’ não é um complemento do projeto; é parte da história que ele pretende contar”, afirma Clécio Fonseca, também sócio da FHaus Empreendimentos.
Essa lógica aparece em outras decisões do Athene Garden. Assinado pelo arquiteto Leonardo Zanatta, com paisagismo de Ricardo Cardim, o projeto retirou oito unidades do plano original para ampliar áreas de convivência, contato com a natureza e qualidade ambiental, uma renúncia estimada em R$ 50 milhões em potencial de vendas. O empreendimento – primeiro home wellness de Santa Catarina – terá 148 apartamentos distribuídos em duas torres e está inserido no Colinas de Camboriú, bairro planejado cercado por mais de 400 mil m² de Mata Atlântica preservada.
Com entrega prevista para 2030, o Athene prevê certificações internacionais LEED e WELL em nível Platinum, além da adoção dos selos Biodiversidade Nativa e Floresta de Bolso®. Nesse conjunto, “Refúgio” funciona como síntese visual do projeto: uma obra criada a partir daquilo que já ocupava o território e incorporada à arquitetura antes mesmo de o edifício existir.

