Por Matheus Diogo Fagundes, presidente global da Audaces
Caminhando recentemente pelas Galeries Lafayette, em Paris, fiquei surpreso ao ver um andar inteiro dedicado a peças second hand. Há cinco ou dez anos, um cenário como esse era inimaginável em uma das lojas de departamento mais emblemáticas do mundo. Mas hoje diz muito sobre o momento que a moda atravessa. A sustentabilidade passou a ocupar um lugar antes reservado ao luxo, sendo desejada e valorizada como sinal de bom gosto e de consciência.
O 12º relatório divulgado pelo Boston Consulting Group (BCG) com a Altagamma, fundação que reúne marcas de luxo italianas, ajuda a entender essa mudança. O estudo ouviu mais de 10 mil consumidores em 11 países, entre eles o Brasil, e registra uma virada no que eles associam ao luxo ao longo da última década. Status, reconhecimento e o desejo de ser visto, que ocupavam o topo da lista nove anos atrás, caíram para as últimas posições. Em seu lugar subiram valores como tempo, saúde e longevidade. Design, qualidade artesanal e atemporalidade são hoje os três principais motivos de compra em todas as faixas de gasto.
Uma bolsa que atravessa gerações, um casaco que muda de dono e mantém o valor, um lenço que carrega histórias. Enquanto os artigos vão ganhando outros significados, toda a cadeia da moda vai se adaptando a um novo comportamento, buscando resolver problemas que pareciam difíceis de superar. Foi o que percebi em Hong Kong, onde estive no início de setembro. Por lá, o Instituto de Pesquisa de Têxteis e Vestuário (HKRITA) trabalha com a Fundação H&M para desatar um dos nós mais difíceis do setor, a reciclagem de tecidos mistos. Dessa parceria nasceu a Green Machine, usada para separar o algodão e poliéster. Um se transforma em pó de celulose, já testado na agricultura, enquanto o outro volta a ser fio e ganha nova vida em outra peça.
Essa transformação não acontece apenas nas vitrines, ela está no chão de fábrica. No bairro do Uruguai, na Cidade Baixa de Salvador, a confecção Polo Salvador recebeu em 2023 o certificado do G20 que a coloca entre as 100 empresas mais sustentáveis do mundo. Fundado há mais de 25 anos pelo empresário Hari Hartmann, geólogo de formação, o negócio reduziu 90% do custo mensal de água, cortou pela metade o consumo de energia e eliminou de 10% a 15% do desperdício de tecido através de encaixe otimizado. Depois de chegar perto da falência, Hartmann apostou em uma virada amparada pela preocupação ambiental e tecnologia usada com eficiência, o que alavancou seus resultados e hoje emprega moradores da própria região, um bairro periférico de 32 mil habitantes.
Olhando para o fim da década, vejo a sustentabilidade se consolidar como critério da produção à compra. A competitividade de longo prazo dependerá de quanto cada empresa conseguirá produzir sem aumentar proporcionalmente o consumo de recursos, o desperdício de matéria-prima e o impacto ambiental. Tecnologias como o encaixe otimizado de moldes utilizado na Polo Salvador, por exemplo, reduzem resíduo têxtil; o monitoramento em tempo real identifica gargalos de produção; e a digitalização de padrões permite replicar coleções inteiras sem perda de precisão.
A moda sempre soube transformar desejo em comportamento, agora tem a chance de fazer o mesmo com a responsabilidade. O desafio que temos para o futuro é fazer com que essa transformação deixe de ser exceção e passe a fazer parte do cotidiano de quem cria, de quem produz e de quem compra, das vitrines de Paris à confecção de Salvador.

