Enio Conte, fundador da Tattoo Week e um dos precursores da tatuagem no Brasil, explica o que realmente faz diferença antes, durante e depois de tatuar
Carne de porco faz mal para quem acabou de fazer uma tatuagem? Pode beber antes de tatuar? Tatuagem precisa “respirar”? Passar mais pomada faz a pele cicatrizar mais rápido? Com a popularização da tatuagem, dúvidas como essas deixaram de circular apenas entre tatuadores e clientes e passaram a fazer parte das conversas nas redes sociais, onde diferentes recomendações sobre o procedimento são compartilhadas diariamente.
Com mais de quatro décadas de experiência na tatuagem, o artista e fundador da Tattoo Week, maior evento de tatuagem do mundo, Enio Conte, acompanhou de perto a transformação da prática no Brasil. Quando começou a tatuar, nos anos 1980, o cenário era bastante diferente do atual: havia preconceito em relação à arte, dificuldade para encontrar materiais adequados e pouca informação disponível sobre os cuidados antes e depois do procedimento. Ao longo dos anos, além de desenvolver seu trabalho artístico, Enio viajou pela Europa, realizou intercâmbios com tatuadores de diferentes países e acompanhou a profissionalização do setor.
A partir dessa experiência, ele esclarece alguns dos mitos mais comuns sobre tatuagem:
1. Comer carne de porco ou chocolate depois de fazer tatuagem atrapalha a cicatrização?
Mito. Não existe uma regra geral que determine que carne de porco ou chocolate devem ser eliminados da alimentação após fazer uma tatuagem. O mais importante é manter uma alimentação equilibrada e seguir a dieta que está acostumado, além dos cuidados recomendados para a região tatuada.
“Esse é um daqueles mitos que passam de geração para geração. O que o tatuador deve orientar é que o cliente cuide da pele e observe qualquer reação diferente durante a cicatrização. Não é simplesmente comer determinado alimento que vai fazer uma tatuagem cicatrizar mal”, explica Enio
2. Beber álcool antes de fazer uma tatuagem pode aumentar o sangramento?
Verdade. O consumo de álcool próximo ao procedimento pode favorecer o aumento do sangramento, o que pode dificultar o trabalho do tatuador e interferir na experiência do cliente. “Quando comecei, muita coisa era aprendida na prática. Hoje existe muito mais informação sobre como se preparar para uma sessão. Chegar bem hidratado, descansado e sem ter consumido álcool é uma forma de tornar o procedimento mais tranquilo tanto para quem tatua quanto para quem está sendo tatuado”, afirma.
3. É verdade que não se deve coçar ou arrancar a pele que descama durante a cicatrização?
Verdade. A descamação faz parte do processo de recuperação da pele e não deve ser retirada à força. Coçar ou arrancar casquinhas pode provocar novos traumas na região e prejudicar a aparência final do trabalho. “É normal a tatuagem passar por uma fase em que começa a descascar e coçar. O problema é tentar acelerar esse processo. É tentador, eu sei, mas a pele precisa se recuperar naturalmente”, orienta o tatuador.
4. Tatuagem recém-feita não deve ser exposta ao sol?
Verdade. Durante a cicatrização, é importante evitar a exposição direta ao sol. Depois que a pele estiver completamente recuperada, a proteção solar continua sendo um cuidado importante para preservar a tatuagem ao longo do tempo.
“Uma tatuagem é uma arte que fica na pele para sempre. Então, o cuidado não termina quando a sessão acaba. A exposição ao sol ao longo do tempo pode alterar a aparência dos pigmentos, por isso proteger a região tatuada é também uma forma de preservar a arte”, explica Enio.
5. Entrar no mar ou na piscina logo depois de fazer uma tatuagem pode prejudicar a cicatrização?
Verdade. Durante a recuperação, é recomendado evitar mar, piscina e outros ambientes que possam aumentar a exposição da pele a microrganismos, produtos químicos e atrito. “Quem acabou de tatuar precisa entender que aquela região está passando por um processo de recuperação. Não é o momento de entrar na piscina ou passar horas no mar. É importante aguardar a recuperação completa, que pode levar cerca de 30 dias após a tatuagem”, afirma.
6. Tatuagens feitas em áreas de maior atrito desbotam mais rápido?
Verdade. Regiões que sofrem atrito frequente, como mãos, pés, dedos e algumas áreas próximas a articulações, podem apresentar maior alteração na aparência da tatuagem ao longo do tempo.
“Algumas partes do corpo estão constantemente em contato com roupas, calçados ou outras superfícies. Além disso, mãos e pés passam por uma rotina de exposição e movimentação muito grande. Por isso, é preciso considerar a região do corpo quando se pensa na durabilidade de uma tatuagem”, explica.
7. Tatuagens coloridas exigem mais cuidados do que as pretas?
Mito. O cuidado durante a cicatrização é importante independentemente da cor utilizada. O que pode mudar é a forma como determinados pigmentos aparecem e se comportam ao longo do tempo.
“Não é correto pensar que uma tatuagem colorida necessariamente precisa de um cuidado completamente diferente. O mais importante é cuidar da pele durante a cicatrização e manter a região protegida depois. A qualidade do trabalho também depende da técnica, do pigmento e da forma como a pele responde”, afirma Enio.
8. Tatuagens de traço fino perdem definição mais rápido?
Depende. O resultado de uma tatuagem de traço fino ao longo dos anos está relacionado a diversos fatores, como técnica utilizada, região do corpo, exposição solar, características individuais da pele e envelhecimento.
“O traço fino exige precisão do profissional e uma escolha adequada da região onde será feito. Não dá para dizer que todo traço fino vai perder a definição rapidamente. Existem trabalhos muito delicados que permanecem bonitos por muitos anos quando são bem executados e recebem os cuidados necessários”, explica.
9. Tatuagem precisa “respirar” para cicatrizar?
Mito. A tatuagem não precisa ficar exposta ao ar como uma regra para cicatrizar. Os cuidados devem seguir as orientações dadas pelo tatuador e considerar as características de cada procedimento. “Essa expressão de que a tatuagem precisa ‘respirar’ é muito comum, mas o mais importante é não inventar cuidados por conta própria. Cada profissional pode orientar uma rotina de acordo com a técnica utilizada e com o trabalho realizado”, afirma.
10. Quanto mais pomada passar, mais rápido a tatuagem cicatriza?
Mito. Usar uma quantidade maior de produto não significa necessariamente acelerar a cicatrização. O excesso pode, inclusive, deixar a região abafada e desconfortável. “Não é porque um produto faz parte do cuidado que quanto mais você usar, melhor. A orientação do profissional deve ser seguida em relação ao produto, à quantidade e à frequência. Exagerar não significa cuidar mais”, explica Enio.
De materiais improvisados à maior convenção de tatuagem do mundo
A experiência de Enio com a tatuagem começou nos anos 1980, em um pequeno estúdio em São Caetano do Sul. Na época, além do preconceito que cercava a atividade, um dos desafios era a dificuldade para encontrar equipamentos e materiais adequados no Brasil.
A busca por aprimoramento levou Enio à Europa, onde realizou intercâmbios com tatuadores internacionais e passou temporadas trabalhando fora do país. Durante essas viagens, conheceu convenções de tatuagem e começou a imaginar a criação de um grande evento no Brasil que reunisse artistas, admiradores e empresas ligadas à arte na pele.
Depois de algumas tentativas de realizar eventos em São Paulo e no ABC, o projeto ganhou forma com a criação da Tattoo Week, em 2012. Ao lado da esposa e sócia, Esther Gawendo, Enio transformou a ideia em uma convenção que passou a reunir tatuadores brasileiros e estrangeiros, além de marcas, fornecedores, artistas e público.
Em 2026, a Tattoo Week retorna a São Paulo entre os dias 20 e 22 de novembro, no Expo Center Norte, com uma programação que reúne mais de 3 mil artistas, 650 expositores e expectativa de mais de 55 mil pessoas. A convenção também amplia a experiência para além da tatuagem, com atrações musicais e atividades que aproximam a arte na pele de diferentes territórios da cultura.
Tattoo Week São Paulo 2026
Local: Expo Center Norte – Zona Norte de São Paulo
Data: 20, 21 e 22 de novembro de 2026
Shows: Fresno, Bad Luv, Dead Fish, Matuê, Brandão, NandaTsunami, Yunk Vino e Mato Seco
Ingressos: partir de R$95,00 + taxas; crianças de até 12 anos não pagam
Ingresso solidário Mato Seco: R$20,00 + taxas, mediante doação de 2 kg de alimentos

