No Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, crescimento das viagens motivadas por cirurgia plástica reforça a integração entre assistência médica, hospedagem e recuperação

O Brasil, líder mundial em cirurgias estéticas, vem ampliando sua presença na rota de pacientes que viajam para realizar procedimentos e permanecem no destino durante parte da recuperação. O país registrou 2,35 milhões de cirurgias desse tipo, segundo o levantamento mais recente da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), divulgado em 2025, enquanto o volume mundial de procedimentos comparáveis cresceu 46,3% em relação a 2020. A combinação entre procura, especialização médica e estrutura de atendimento ajuda a explicar por que o turismo ligado à cirurgia plástica ganha espaço no país e passa a exigir uma jornada que inclui não apenas o centro cirúrgico, mas também hospedagem, acompanhamento e organização do pós-operatório. 

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Às vésperas do Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, essa movimentação aproxima dois setores que durante muito tempo foram tratados separadamente. Para  Alexandre Peruzzo, médico cirurgião plástico, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e proprietário de clínica de alto padrão em Porto Alegre, o deslocamento modifica a própria organização do atendimento. “Quando alguém viaja para fazer uma cirurgia, não existe apenas o procedimento. É preciso pensar em onde essa pessoa vai ficar, quem estará disponível durante a recuperação, como serão feitos os retornos e quando haverá condição clínica para voltar para casa. A jornada inteira passa a fazer parte do cuidado”, afirma.

O interesse pelo tema não se limita à cirurgia estética. Dados apresentados pela SP Negócios em 2026 apontam que o turismo de saúde movimenta cerca de R$ 62,9 bilhões por ano no Brasil, incluindo brasileiros que se deslocam pelo próprio território em busca de tratamentos e procedimentos especializados. O segmento foi tema de debates na Hospitalar 2026 e no BAPS Summit Turismo de Saúde, que colocaram na mesma discussão hospitais, clínicas, hotelaria, mobilidade e serviços de apoio ao paciente.

A cirurgia plástica, porém, ocupa uma posição particular nesse mercado. Em São Paulo, principal polo brasileiro de turismo de saúde, procedimentos estéticos respondem por 25% das demandas desse público, à frente de áreas como cardiologia e oncologia, segundo levantamento divulgado pela São Paulo Negócios. A capital recebe pessoas de outras regiões do Brasil e também do exterior para tratamentos, cirurgias, exames e intervenções estéticas.

Brasil reúne escala e tradição na especialidade

A posição brasileira na cirurgia plástica ajuda a explicar esse interesse. Além de liderar o número de operações estéticas, o país ficou atrás apenas dos Estados Unidos no total de procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos realizados por cirurgiões plásticos de acordo com o ranking divulgado em 2025. A ISAPS estima ainda que o Brasil concentre 6.497 profissionais da especialidade, a segunda maior população de cirurgiões plásticos entre os países analisados.

No caso da cirurgia plástica, a escolha também costuma envolver fatores difíceis de separar da relação médico paciente, como indicação, confiança, técnica empregada, possibilidade de acompanhamento e disponibilidade para permanecer na cidade durante o período necessário.

Peruzzo avalia que, no atendimento de alto padrão, a procura por conforto não deve ser confundida com uma tentativa de transformar cirurgia em férias. “Existe uma diferença importante entre tornar a recuperação mais confortável e tratar um procedimento cirúrgico como uma experiência turística convencional. O paciente pode querer privacidade, uma boa hospedagem e facilidade logística, mas continua sendo alguém em recuperação. A parte médica precisa comandar todas as outras escolhas”, ressalta.

Essa distinção é especialmente importante porque o deslocamento acrescenta variáveis ao pós-operatório. Uma pessoa operada perto de casa pode retornar ao consultório com maior facilidade, contar com sua rede familiar e adiar compromissos sem precisar reorganizar uma passagem aérea. Para quem viaja, essas decisões precisam ser tomadas antes mesmo da cirurgia.

Quando a hospedagem passa a fazer parte do pós-operatório

As recomendações da própria ISAPS reforçam esse cuidado. A entidade orienta pacientes que realizam cirurgia estética longe de casa a definir previamente onde permanecerão durante a recuperação, como ocorrerá o acompanhamento e qual estrutura estará disponível caso surja alguma intercorrência. Dependendo da intervenção, a recomendação é permanecer na região onde o procedimento foi feito por pelo menos uma semana. Viajar cedo demais pode elevar riscos associados a períodos prolongados de imobilidade, como trombose venosa profunda e embolia pulmonar.

É nesse ponto que hotelaria e atendimento médico começam a se aproximar. Para pacientes de maior poder aquisitivo, atributos tradicionalmente associados ao mercado de luxo, como privacidade, discrição, personalização e redução de deslocamentos, passam a ter uma função prática durante a estadia.

Na estrutura desenvolvida por Peruzzo em Porto Alegre, a proposta de turismo médico considera justamente a proximidade entre consultório, hospedagem e suporte hospitalar. O projeto apresentado pelo cirurgião conecta sua clínica a uma experiência de permanência que leva em conta o Hotel Blue Tree by Hilton e o Hospital Moinhos de Vento, buscando reduzir a fragmentação entre os diferentes momentos da jornada do paciente.

“Em saúde, alto padrão não deveria ser medido apenas pela aparência de um espaço ou pelo serviço oferecido no hotel. Para quem está longe de casa, luxo é ter menos pontos de atrito. É conseguir falar com a equipe, saber onde será atendido, ter uma estrutura hospitalar disponível e não precisar resolver questões importantes justamente no momento em que deveria estar concentrado na recuperação”, aponta o médico.

A lógica do procedimento também muda

O avanço do turismo ligado à cirurgia plástica traz ainda uma questão clínica: a tentação de aproveitar uma única viagem para concentrar diferentes intervenções. Para Peruzzo, essa lógica precisa ser vista com cautela. Sua atuação é voltada a técnicas minimamente invasivas e à personalização do procedimento de acordo com a necessidade de cada paciente, com atenção ao impacto fisiológico, à preservação da massa muscular, do metabolismo e à retomada da rotina quando houver indicação adequada.

“A distância não pode ser argumento para aumentar uma cirurgia. Às vezes, o paciente pensa que, já que viajou, deveria resolver tudo de uma vez. A decisão médica precisa seguir o caminho contrário: fazer aquilo que é indicado para aquela pessoa, na extensão adequada e respeitando a capacidade de recuperação do organismo. A viagem precisa se adaptar ao tratamento”, afirma.

Procedimentos de menor impacto podem fazer sentido dentro desse planejamento quando clinicamente apropriados, mas não eliminam a necessidade de avaliação individual nem transformam uma recuperação em processo previsível para todos. A ISAPS também recomenda que os pacientes pesquisem a formação do cirurgião, verifiquem as condições da clínica ou hospital e saibam, antes de viajar, quem assumirá o acompanhamento caso seja necessário atendimento depois do retorno para casa.

Mais do que uma viagem para operar

O crescimento do turismo de saúde amplia, portanto, uma discussão que vai além da capacidade brasileira de atrair pacientes. Para a cirurgia plástica, o desafio é transformar a viagem em uma jornada assistencial estruturada, sem deixar que conveniência, hotelaria ou desejo de aproveitar o destino se sobreponham aos critérios médicos.

Nesse modelo, a experiência de alto padrão ganha uma definição menos ligada à ostentação e mais próxima de previsibilidade, continuidade e acesso. “O paciente que sai da própria cidade para fazer uma cirurgia também sai, temporariamente, da sua rede de apoio. Quanto mais distante estiver, maior precisa ser a preocupação com o que acontece antes e depois do centro cirúrgico. A qualidade não está apenas no procedimento, mas na capacidade de cuidar dessa pessoa até que ela possa voltar com segurança à sua rotina”, conclui Peruzzo.

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