Ex-atleta e treinador internacional com trajetória na USA Volleyball, Ricardo Guimarães analisa como o canabidiol entrou na discussão sobre dor, sono, recuperação e longevidade esportiva
O debate sobre o uso do canabidiol (CBD) no esporte de alto rendimento ganhou uma nova dimensão nos últimos anos. Em um cenário marcado por calendários cada vez mais intensos, viagens constantes, sobrecarga física e pressão por resultados, a recuperação passou a ocupar um espaço tão estratégico quanto o próprio treinamento.
É nesse contexto que o CBD passou a integrar discussões da medicina esportiva e da ciência sobre dor, sono, recuperação física e qualidade de vida dos atletas. O tema exige, no entanto, cautela: as pesquisas continuam em desenvolvimento, não há consenso sobre protocolos padronizados para atletas de elite e o uso de qualquer substância deve considerar acompanhamento profissional e as regras antidoping aplicáveis.
Para Ricardo Pimenta Bastos Guimarães, conhecido internacionalmente como Coach Rico, o avanço dessa discussão representa uma mudança na própria forma como o esporte profissional enxerga a carreira de um atleta.
Ex-atleta e treinador internacional de voleibol, Ricardo construiu uma trajetória de mais de três décadas entre o esporte de alto rendimento, os Estados Unidos, o Brasil e a Europa. Radicado na Califórnia desde 1986, atuou por mais de 25 anos como treinador e, entre 2010 e 2019, integrou programas de alto rendimento da USA Volleyball. Sua experiência também inclui o esporte universitário da NCAA e passagens pelo voleibol internacional.
“O esporte de alto rendimento mudou profundamente. Hoje, não se trata apenas da performance imediata. Recuperação, sono, prevenção de lesões e longevidade passaram a fazer parte da discussão sobre desempenho. O CBD entra nesse debate como um tema que precisa ser estudado com seriedade, responsabilidade médica e base científica”, afirma Ricardo Guimarães.
Futebol coloca recuperação no centro do debate
No futebol, a discussão ganha relevância diante da intensidade dos calendários, do número de partidas disputadas ao longo da temporada e do pouco tempo disponível entre jogos, viagens e treinamentos.
A medicina esportiva moderna já trabalha com diferentes estratégias para gerenciamento de carga e recuperação, incluindo fisioterapia, monitoramento do sono, nutrição, recuperação ativa e acompanhamento multidisciplinar.
Nesse cenário, o CBD aparece como um dos temas investigados pela ciência, especialmente em questões relacionadas à recuperação e ao bem-estar do atleta — e não como uma substância destinada a aumentar diretamente a performance esportiva.
“O atleta vive uma realidade de sobrecarga constante. Quando se conhece por dentro a rotina do esporte de elite, entende-se que a recuperação não é um detalhe: ela faz parte da performance. Mas qualquer nova abordagem precisa ser analisada com rigor e sem promessas milagrosas”, diz Ricardo.
O que a ciência investiga
A literatura científica vem analisando o CBD em diferentes contextos relacionados à saúde e à prática esportiva. Entre as áreas de investigação estão:
- dor;
- processos inflamatórios;
- qualidade do sono;
- recuperação física;
- ansiedade e estresse;
- bem-estar e qualidade de vida.
Apesar do crescente interesse científico, especialistas destacam que ainda são necessários estudos clínicos mais robustos e específicos com atletas de alto rendimento para determinar indicações, limitações e protocolos.
Para Ricardo Guimarães, justamente por existir um interesse crescente sobre o tema, a comunicação responsável tornou-se fundamental.
“O maior erro seria transformar o CBD em moda ou solução milagrosa. O caminho precisa ser exatamente o contrário: mais ciência, mais educação e mais responsabilidade. O atleta precisa ter acesso à informação de qualidade e orientação profissional”, afirma.
Da USA Volleyball à cannabis medicinal
A participação de Ricardo Guimarães nesse debate reúne duas experiências que raramente aparecem na trajetória de um mesmo porta-voz: décadas dentro do esporte internacional de alto rendimento e atuação no ecossistema da cannabis medicinal.
Conhecido como Coach Rico, ele desenvolveu uma carreira internacional de mais de 25 anos como treinador, com experiências nos Estados Unidos, Brasil e Europa. Entre 2010 e 2019, integrou programas de alto rendimento da USA Volleyball, atuando em atividades relacionadas ao desenvolvimento e à avaliação de atletas.
A ciência também está presente em sua história familiar. Ricardo é filho do professor e cientista Jorge Almeida Guimarães, ex-presidente da CAPES e da EMBRAPII, e sobrinho do professor Elisaldo Carlini, um dos pioneiros da pesquisa científica sobre canabinoides no Brasil.
Atualmente, Ricardo está à frente da CBD Brasil e atua na conexão entre cannabis medicinal, educação em saúde, ciência e acesso responsável a terapias canabinoides.
Essa combinação entre experiência prática no esporte de elite e atuação no setor da cannabis medicinal o levou a aprofundar o debate sobre um dos temas emergentes da medicina esportiva: o papel que os canabinoides poderão ocupar, à medida que a ciência avance, nas estratégias de saúde, recuperação e longevidade dos atletas.
“Minha trajetória sempre esteve ligada à construção de pontes. Primeiro, entre atletas e alta performance. Hoje, também entre ciência, profissionais da saúde e pacientes. No esporte, precisamos construir essa mesma ponte: sair do preconceito e também do entusiasmo sem evidência para chegar a uma discussão madura, científica e responsável”, afirma Ricardo.
Uma discussão que vai além da performance
Para Ricardo, o futuro da medicina esportiva tende a ampliar o olhar sobre o atleta.
A discussão deixa de estar concentrada exclusivamente em resultados imediatos e passa a incluir questões como saúde física e mental, recuperação de longo prazo, qualidade do sono, prevenção de lesões e longevidade de carreira.
É nesse cenário que o CBD se tornou objeto de interesse e investigação.
“Um atleta não é uma máquina de resultados. Existe uma carreira, um corpo submetido a anos de impacto e uma vida depois do esporte. A medicina esportiva do futuro terá de olhar cada vez mais para a longevidade e para a saúde integral desse atleta”, conclui.


