A expansão acelerada da energia solar e eólica está recolocando as hidrelétricas reversíveis no centro do planejamento elétrico brasileiro. Com a regulamentação dos sistemas de armazenamento aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em 2 de junho de 2026 e a Resolução nº 8/2026 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o país abre caminho para contratar sistemas de armazenamento hidráulico por leilões e outros mecanismos competitivos. A medida pode ajudar a armazenar excedentes renováveis e reforçar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) nos horários de maior pressão sobre a rede.

O interesse cresceu porque a expansão solar e eólica alterou a operação do sistema: há momentos de elevada geração renovável e baixo consumo, seguidos por períodos de maior demanda e menor produção solar. Esse descompasso é chamado "rampa do pôr do sol", quando a geração fotovoltaica cai rapidamente no fim da tarde e aumenta a necessidade de recursos despacháveis.

As usinas reversíveis funcionam como uma bateria hidráulica de longa duração: em horários de sobra de eletricidade, a água é bombeada para um reservatório superior; quando o sistema precisa de energia, essa água desce por turbinas e volta a gerar eletricidade. Diferentemente de uma hidrelétrica convencional, a reversível opera prioritariamente como infraestrutura de armazenamento.

O movimento brasileiro acompanha uma tendência internacional. Segundo a International Hydropower Association (IHA), a capacidade global de hidrelétricas reversíveis chegou a 189 GW em 2024, após acréscimo de 8,4 GW no ano, enquanto a carteira mundial de projetos em desenvolvimento soma cerca de 600 GW. A entidade descreve a tecnologia como uma das principais "water batteries" do setor elétrico, expressão usada para destacar sua função de armazenamento em grande escala, embora sua adoção dependa de condições geográficas, ambientais e econômicas específicas.

Regulação e modelo econômico

O engenheiro e advogado Arnaldo Feitosa, especialista em regulação do setor elétrico, relata que "a nova regulação não eliminou de forma geral a cobrança pelo uso da rede para todo tipo de armazenamento. A ANEEL aprovou uma solução intermediária: sistemas autônomos totalmente controlados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) podem receber tratamento diferenciado na cobrança dos encargos de consumo, enquanto modelos de operação livre permanecem sujeitos às regras gerais de contratação e pagamento pelo uso da rede. Essa distinção é relevante porque uma usina reversível consome energia ao bombear água e injeta energia ao gerar, o que exige tratamento regulatório próprio para evitar distorções econômicas".

Benefícios para o sistema elétrico e para o consumidor

O executivo sênior Luiz Carlos Martins, gestor global de grandes projetos de engenharia e infraestrutura no setor elétrico, além de operações de fusões e aquisições (M&A), defende que "para o sistema elétrico, as reversíveis podem reduzir cortes de geração renovável, diminuir em alguns cenários o acionamento de termelétricas mais caras e intensivas em emissões, melhorar o aproveitamento da transmissão e ampliar a confiabilidade em momentos de pico".

Ainda segundo Luiz Carlos, "para o consumidor, o benefício potencial não deve ser apresentado como redução automática da tarifa, mas como possível contenção de custos sistêmicos, menor exposição a despachos emergenciais e melhora da segurança do abastecimento, desde que os projetos sejam competitivos nos leilões e operados conforme as necessidades do SIN".

"A tecnologia também pode complementar baterias eletroquímicas, resposta da demanda e expansão da transmissão. Baterias tendem a ter implantação mais rápida e boa resposta de curto prazo; usinas reversíveis exigem mais tempo de planejamento, licenciamento, obras civis e conexão, mas podem oferecer armazenamento por várias horas, vida útil longa e serviços eletromecânicos relevantes para a estabilidade da rede", afirma o executivo.

Riscos ambientais, mitigação e limites

Na avaliação de Diercio Ferreira, professor de finanças, economista e CEO da Techtalent Innovation, "os custos e impactos ambientais são apontados como condicionantes relevantes para a implantação de usinas hidrelétricas reversíveis e o licenciamento deve avaliar efeitos sobre uso do solo, ecossistemas, paisagem, recursos hídricos e comunidades locais."

"A mitigação passa por priorizar projetos de ciclo fechado, reservatórios fora de rios naturais, reaproveitamento de áreas degradadas ou cavas de mineração, estudos geológicos detalhados, licenciamento transparente e consulta pública", afirma o professor.

Gêmeos digitais como plataforma de decisão em usinas hidrelétricas reversíveis

Além dos desafios regulatórios e ambientais, a otimização da operação de usinas reversíveis exigirá ferramentas digitais capazes de simular ciclos de bombeamento, geração e resposta à rede antes da entrada em operação dos ativos físicos.

Marcos Dias de Paula, coordenador de projetos de pesquisa e desenvolvimento da Firjan SENAI SESI, considera importante "tratar o gêmeo digital não como um simples painel de monitoramento, mas como uma plataforma de decisão e aprendizagem operacional. Em uma usina reversível, mudanças de modo de operação, bombeamento, geração, partida, parada e eventual atuação como compensador síncrono envolvem esforços hidráulicos, eletromecânicos e de controle que precisam ser testados com segurança".

Ainda segundo Marcos Dias, "um ambiente digital bem construído permite antecipar transientes hidráulicos, apoiar manutenção preditiva, avaliar desgaste de equipamentos, treinar estratégias de controle e até testar técnicas de aprendizado por reforço antes de implementar uma estratégia operacional no ativo físico. Essa experiência internacional é especialmente útil para o Brasil, pois permite incorporar inteligência operacional desde a fase de concepção dos projetos, aumentando a confiabilidade, a vida útil e a capacidade de resposta das futuras usinas hidrelétricas reversíveis às oscilações da geração solar e eólica", afirma o pesquisador.

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