Mostra retrata a força e a tradição secular das mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, reconhecidas pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade

A Kobbi Gallery recebe a exposição “Haenyeo, Mulheres do Mar”, do fotógrafo brasileiro Luciano Candisani, reunindo imagens que documentam a rotina das lendárias mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. A mostra apresenta um recorte do extenso projeto realizado por Candisani ao longo de duas viagens à ilha, onde viveu uma imersão profunda na cultura das haenyeo mulheres que mergulham em apneia para coletar alimentos no fundo do mar, preservando uma tradição iniciada há cerca de quatro séculos.

Com idades entre 65 e 92 anos, essas mulheres desafiam diariamente as águas frias do oceano, mergulhando a até 10 metros de profundidade apenas com o ar dos pulmões. Embaixo d’água, permanecem por cerca de dois minutos em busca de polvos, peixes, conchas e algas, em uma prática que atravessa gerações e se tornou símbolo de resistência, pertencimento e sustentabilidade.

Mais do que retratar o cotidiano das haenyeo, Candisani revela a força simbólica dessas mulheres, cuja tradição surgiu em meio a uma conjuntura sociopolítica que levou os homens a deixarem a ilha, fazendo com que elas assumissem o sustento das famílias através do mar. Hoje, a cultura das haenyeo integra a lista de patrimônios culturais intangíveis da humanidade da Unesco e é reconhecida mundialmente pelos valores universais que representa.

“Essa é uma história sobre a força peculiar das mulheres e vem carregada de lições importantes sobre temas universais como a passagem do tempo, o pertencimento e a ligação com o ambiente do qual nossa sobrevivência depende”, destaca Candisani.

Em 2017, o trabalho do fotógrafo em Jeju inspirou o longa-metragem “Haenyeo: A Força do Mar”, dirigido por Lygia Barbosa e exibido pelo canal National Geographic. Dois anos depois, Candisani retornou à ilha para concluir o projeto e acompanhar uma das etapas mais desafiadoras da atividade das mergulhadoras: a coleta de algas Miyeok. Durante esse período, as haenyeo permanecem até cinco horas em águas com temperatura média de 15 graus, saindo do mar com mais de 120 quilos de algas, conhecidas por suas propriedades nutricionais e farmacológicas.

“Passei incontáveis horas no mar ao lado de mergulhadoras como Song Keum Yeon, 75, e Kim Bok-sil, 89. Elas parecem frágeis demais diante da energia das ondas e da dureza das suas tarefas, mas desempenham tudo com maestria. Percebi que a força delas não está na juventude ou nos músculos, está na sabedoria”, afirma o fotógrafo.

Em “Haenyeo, Mulheres do Mar”, Luciano Candisani transita entre arte e documentação ao apresentar imagens em preto e branco que ressaltam a essência da relação das mergulhadoras com o oceano. Para registrar as cenas, o fotógrafo também mergulhou em apneia, sem o uso de cilindros, conseguindo acompanhar de perto o ritmo intenso das haenyeo e capturar a emoção da experiência de maneira íntima e sensível.

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