Um artigo científico publicado nesta semana na revista internacional Public Health alerta que a vacinação permanece subutilizada como estratégia de proteção para pessoas que vivem com condições crônicas não transmissíveis (CCNTs), apesar de as evidências demonstrarem redução de hospitalizações, complicações e mortes relacionadas a infecções como influenza, covid-19, doença pneumocócica e vírus sincicial respiratório (VSR).

A publicação, intitulada "Integrating vaccination into strategies to protect people living with noncommunicable diseases", foi desenvolvida por pesquisadores do Fórum Intersetorial de Condições Crônicas Não Transmissíveis do Brasil (ForumCCNTs) e da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os autores defendem que a vacinação deixe de ser tratada apenas como uma estratégia de controle de doenças infecciosas e passe a integrar de forma sistemática as políticas públicas de prevenção e manejo das CCNTs.

Segundo os autores, pessoas com doenças cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias crônicas, câncer e doença renal crônica apresentam risco significativamente maior de desenvolver formas graves de infecções respiratórias, que frequentemente desencadeiam infarto, acidente vascular cerebral (AVC), descompensação metabólica e agravamento de doenças pulmonares. O trabalho destaca ainda que vacinas contra influenza, covid-19, pneumococo, herpes-zóster e outros agentes infecciosos podem reduzir esses desfechos adversos e contribuir para o envelhecimento saudável.

Os pesquisadores destacam ainda evidências de que a vacinação contra influenza está associada à redução da mortalidade cardiovascular em pessoas com diabetes e doenças do coração. Vacinas como as de HPV e hepatite B já têm papel reconhecido na prevenção de determinados tipos de câncer, e estudos recentes têm associado algumas vacinas a menor risco de demência e de doenças neurodegenerativas.

"O desafio das condições crônicas de saúde não pode ser enfrentado apenas com medicamentos, atividade física e alimentação saudável. Prevenir infecções por meio da vacinação também significa prevenir complicações cardiovasculares, respiratórias e metabólicas, reduzindo hospitalizações e mortes evitáveis", afirma o pesquisador Mark Barone, autor correspondente do estudo.

Cobertura vacinal permanece abaixo da meta

O alerta dos pesquisadores ocorre em um momento de baixa adesão à vacinação contra influenza no Brasil. O monitoramento do Ministério da Saúde indica que a cobertura vacinal entre os grupos prioritários permanece abaixo de 50%, incluindo pessoas com 60 anos ou mais, gestantes e pessoas com CCNTs, como diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cardiovasculares, doença renal crônica e outras condições que aumentam o risco de complicações.

Para os autores, esse cenário amplia a preocupação diante da elevada circulação de vírus respiratórios e da vulnerabilidade das pessoas que convivem com essas condições de saúde.

Dados nacionais reforçam o impacto

O mais recente relatório anual de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde registrou 230.622 hospitalizações e 13.273 óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país.

Entre os óbitos por SRAG associados à covid-19, 84,5% ocorreram em pessoas com uma ou mais CCNT, destacando-se:

Cardiopatia crônica (52,9%); Diabetes (31,9%); Pneumopatia crônica (15,8%).

Nos óbitos por influenza, 79,0% também apresentavam CCNTs, principalmente:

Cardiopatia crônica (52,2%); Diabetes (32,3%); Pneumopatia crônica (19,4%).

Já entre os óbitos por SRAG causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR), 56,6% ocorreram em pessoas com CCNTs, incluindo:

Cardiopatias (48,2%); Diabetes (25,0%); Pneumopatias crônicas (18,4%).

Segundo o Ministério da Saúde, esses óbitos concentram-se principalmente entre maiores de 60 anos, adultos com fatores de risco e, no caso do VSR, também entre crianças. Para os autores do artigo, a imunização representa uma estratégia de saúde pública altamente eficaz e com excelente custo-benefício para conter essa mortalidade evitável.

Mudança de paradigma

O artigo ressalta que a própria Declaração Política da 4ª Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre Doenças Crônicas Não Transmissíveis já reconhece a importância de ampliar o acesso à vacinação para pessoas com condições crônicas, mas observa que essa integração ainda aparece de forma limitada nas principais políticas internacionais voltadas às CCNTs.

Os pesquisadores defendem que a avaliação do calendário vacinal passe a fazer parte do acompanhamento rotineiro das pessoas com doenças crônicas na atenção primária e nos serviços especializados, contribuindo para reduzir internações evitáveis, fortalecer a preparação para futuras emergências sanitárias e acelerar o alcance da Meta 3.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, que prevê a redução da mortalidade prematura por doenças crônicas não transmissíveis em um terço até 2030.

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