No Brasil, apenas 32% das pessoas se sentem seguras na cidade em que moram. Além disso, 94% enxergam o seu município como violento "em algum grau", segundo um levantamento encomendado pelo Instituto Sou da Paz e realizado pela OMA Pesquisas.

Diante do sentimento de insegurança, é comum que condomínios busquem novas formas de proteger os moradores e visitantes de possíveis roubos e furtos. Se antes a estratégia se concentrava em instalar câmeras de monitoramento, a abordagem evoluiu nos últimos anos.

"Durante muito tempo, a principal função das câmeras era registrar o que acontecia para que as imagens fossem consultadas depois de uma ocorrência. Esse modelo fazia sentido em uma época em que a tecnologia era limitada e o objetivo era identificar os responsáveis após um crime", informa Wesley Rosa, diretor-geral da White Segurança, empresa especializada no segmento.

Em outras palavras, uma gravação de alta qualidade continua sendo importante, mas não impede invasões, furtos ou tentativas de roubo. A filmagem, ressalta o especialista, apenas documenta o que já aconteceu.

"O que os condomínios precisam atualmente é de capacidade de identificar comportamentos suspeitos em tempo real e agir antes que a situação evolua para um incidente. É exatamente nesse ponto que entram a inteligência artificial (IA), o monitoramento ativo e a atuação humana especializada. A tecnologia deixou de ser um instrumento de registro para se tornar uma ferramenta de prevenção", destaca Rosa.

Ele explica que a IA consegue analisar centenas de eventos simultaneamente, algo inviável para um operador humano. A tecnologia identifica padrões que fogem do comportamento normal do ambiente, como permanência excessiva em locais sensíveis, movimentações fora do horário habitual, tentativas de acesso não autorizadas, pessoas circulando repetidamente ao redor do condomínio ou veículos realizando monitoramento suspeito.

Os alertas chegam imediatamente a uma central de monitoramento, onde profissionais treinados avaliam a situação e tomam as medidas necessárias. Em vez de descobrir o problema depois que ele aconteceu, a equipe consegue atuar durante a tentativa de invasão, orientando moradores e acionando equipes de apoio e comunicando rapidamente as forças de segurança quando necessário, comenta Rosa.

"Na White Segurança, temos diversos casos que ilustram essa mudança na abordagem. Em uma das ocorrências, nosso sistema identificou um indivíduo que permanecia há vários minutos observando a movimentação da portaria de um condomínio, demonstrando um comportamento incompatível com o fluxo normal de moradores e visitantes. O alerta foi gerado automaticamente pela IA e analisado pela central de monitoramento", exemplifica Rosa.

Após o alerta, a equipe iniciou os protocolos preventivos, reforçou a vigilância no local e acionou o apoio. Ao perceber que estava sendo monitorado, o indivíduo deixou o local sem executar qualquer ação criminosa, complementa o diretor-geral da White Segurança.

"Em um modelo tradicional baseado apenas em gravação de imagens, esse comportamento provavelmente seria descoberto somente após uma tentativa de invasão. Nesse caso, o crime sequer aconteceu porque houve identificação precoce do risco", compara Rosa.

Erros comuns em condomínios

Apesar de a criminalidade ser uma das principais preocupações dos brasileiros, Rosa avalia que muitas falhas de segurança acontecem no dia a dia dos condomínios. O primeiro erro, segundo o especialista, é acreditar que quantidade significa eficiência. Muitos locais investem em dezenas de câmeras, mas não possuem ninguém monitorando essas imagens em tempo real, alerta ele.

Outro equívoco é focar apenas na aquisição de equipamentos, deixando em segundo plano os processos, os protocolos de segurança e o treinamento das equipes.

"Também existe a falsa percepção de que a IA substitui completamente a atuação humana. Na realidade, a tecnologia potencializa a capacidade operacional, mas as decisões continuam dependendo de profissionais preparados", pontua Rosa.

O diretor-geral menciona ainda que a segurança coletiva passa pela colaboração dos moradores do condomínio. Isso inclui atitudes como: não permitir a entrada de desconhecidos; não emprestar ou compartilhar chaves, tags ou senhas de acesso; respeitar os procedimentos de identificação de visitantes, entregadores e prestadores de serviço.

Ele chama a atenção para a importância de não divulgar informações que possam facilitar ações criminosas, como períodos em que o imóvel ficará vazio. Mesmo que o condomínio tenha funcionários capacitados, falhas de comportamento dos moradores podem comprometer todo o sistema.

Tendências para o futuro

"A principal tendência no setor é que a segurança deixe de responder aos acontecimentos e passe a antecipá-los cada vez mais. A IA continuará evoluindo na identificação de padrões comportamentais, reduzindo falsos alarmes e aumentando a capacidade de prever situações de risco antes mesmo que elas ocorram", prevê Rosa.

O especialista diz que haverá uma integração cada vez maior entre diferentes tecnologias, como controle de acesso inteligente, reconhecimento facial, leitura automática de placas, sensores, análise de comportamento e monitoramento remoto, formando um ecossistema conectado de proteção.

"Destaco ainda o uso crescente de dados para gestão da segurança. Em vez de decisões baseadas apenas na percepção, síndicos e administradoras terão acesso a indicadores que permitem identificar vulnerabilidades e medir a eficiência das operações", acentua Rosa.

No geral, resume o especialista, "investir em soluções integradas, atualização tecnológica, protocolos bem definidos e equipes especializadas será cada vez mais decisivo para proteger pessoas e patrimônios".

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