Idealizada por Milton Mattani e atualmente liderada por Marcello Sangiovanni, atual presidente da FIFOS, a modalidade reúne esporte, inclusão social e uma cadeia de negócios formada por arenas, competições, escolas e profissionais
Enquanto o futebol segue mobilizando milhões de brasileiros dentro e fora dos estádios, uma modalidade criada no país há quase quatro décadas vem ampliando seu espaço nas cidades, nas periferias e também no cenário internacional. O Futebol 7 Society deixou de ser apenas uma alternativa ao futebol de campo para se consolidar como um esporte organizado, com regras próprias, calendário de competições e entidades responsáveis pela gestão da modalidade no Brasil e no exterior.
Disputado em campos de grama sintética por equipes de sete jogadores, o esporte ganhou força principalmente nos grandes centros urbanos, onde a escassez de áreas para campos oficiais e a dinâmica das cidades reduziram o acesso ao futebol de campo tradicional. Esse crescimento se reflete na realização de competições de abrangência nacional, como a Copa do Brasil de Futebol 7 Society 2026, que será disputada entre os dias 23 e 26 de julho, no CERET, em São Paulo.
A modalidade está presente em clubes, condomínios, escolas, centros esportivos, projetos sociais e arenas particulares de diferentes regiões do país. Segundo estimativas divulgadas pela Confederação Brasileira de Soccer Society (CBSS) e pela Federação Internacional de Football Soccer Society (FIFOS), o Futebol 7 reúne milhões de praticantes e movimenta uma cadeia formada por gestores de arenas, professores, árbitros, atletas, fabricantes de materiais esportivos, organizadores de campeonatos e prestadores de serviços.
A origem desse movimento está diretamente ligada ao professor Milton Mattani, considerado o criador da modalidade. Em 1988, ele elaborou o primeiro livro oficial de regras com o objetivo de adaptar a dinâmica do futebol a espaços menores, sem perder características como velocidade, habilidade e trabalho coletivo.
Mattani também participou da implantação de um dos primeiros campos de grama sintética da América Latina e do desenvolvimento de bola e calçados específicos para a prática. Ao longo dos anos, liderou a criação da Federação Paulista de Soccer Society, da CBSS e, posteriormente, da FIFOS, estruturando as bases institucionais e esportivas da modalidade.
Após sua morte, em 2021, o trabalho passou a ser conduzido por dirigentes que acompanharam a consolidação do esporte. Entre eles está o engenheiro Marcello Cordeiro Sangiovanni, atual presidente da FIFOS e um dos responsáveis pela continuidade das regras, pela organização das competições e pela expansão internacional.
“O Futebol 7 nasceu para democratizar o acesso ao esporte. Hoje ele também representa oportunidades de trabalho, formação esportiva e desenvolvimento para milhares de jovens”, afirma Sangiovanni.
Copa do Brasil de Futebol 7 Society
Realizada pela Confederação Brasileira de Soccer Society (CBSS), a Copa do Brasil de Futebol 7 Society é a principal competição nacional da modalidade e reúne, anualmente, equipes de todas as regiões do país nas categorias masculina, feminina e de base. Além de definir os campeões brasileiros, o torneio promove o intercâmbio entre atletas, comissões técnicas e dirigentes, fortalecendo o desenvolvimento técnico e organizacional do esporte.
A edição de 2026 deve reunir mais de 1.500 atletas, representando dezenas de equipes de diferentes estados. A competição integra o calendário oficial da CBSS e reforça o processo de expansão e profissionalização do Futebol 7 Society no Brasil.
“A Copa do Brasil de Futebol 7 Society é um evento que fortalece não somente uma modalidade brasileira, promove a integração entre atletas de diferentes regiões e evidencia o crescimento do Futebol 7 Society no país e no cenário internacional. Uma competição desta dimensão demonstra a capacidade de organização das nossas entidades e amplia as oportunidades para atletas de todas as categorias, da base ao alto rendimento”, afirma Humberto Tadeu da Silva, presidente da Confederação Brasileira de Soccer Society (CBSS) e diretor de Marketing da Federação Internacional de Football Soccer Society (FIFOS).
Da adaptação urbana à presença nas periferias
O crescimento do Futebol 7 está ligado à própria transformação das cidades brasileiras. Com dimensões menores do que um campo convencional, as arenas de society podem ser instaladas em terrenos reduzidos e aproveitadas durante mais horas do dia.
Essa característica contribuiu para a expansão da modalidade em bairros periféricos e regiões com menor oferta de equipamentos esportivos. Em muitos locais, os campos passaram a funcionar como pontos de convivência, espaços de formação de atletas e ambientes para competições comunitárias.
Além da prática esportiva, as arenas estimulam pequenos negócios. Ao redor dos campeonatos, surgem atividades como locação de quadras, venda de uniformes, alimentação, fotografia, transmissão de partidas, produção de conteúdo digital e formação de árbitros e professores.
Projetos sociais também utilizam a modalidade para atender crianças e adolescentes, ampliar o acesso ao esporte e criar alternativas de lazer em comunidades onde a infraestrutura pública ainda é limitada. A presença próxima das residências facilita a participação das famílias e fortalece o vínculo entre esporte e comunidade.
Um dos exemplos desse impacto é a trajetória do presidente da Confederação Brasileira de Soccer Society (CBSS), Humberto Tadeu. Publicitário formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, ele conquistou bolsa integral de estudos graças ao desempenho no futebol, experiência que, segundo ele, transformou sua vida e moldou sua visão sobre o papel do esporte na sociedade.
Hoje, à frente da CBSS em atuação voluntária, Humberto afirma enxergar sua dedicação como uma forma de retribuir aquilo que o esporte lhe proporcionou.
“O futebol abriu portas que talvez eu não tivesse de outra forma. Consegui me formar graças a uma bolsa conquistada dentro de campo. Hoje, trabalhar voluntariamente pelo Futebol 7 Society é uma forma de devolver à sociedade tudo o que o esporte fez por mim”, afirma.
Para ele, o maior legado da modalidade vai muito além da formação de atletas.
“Quando uma criança entra em um projeto esportivo, ela aprende disciplina, convivência, responsabilidade, respeito ao adversário, compromisso e trabalho em equipe. Aprende a ganhar, mas também a perder. Esses ensinamentos acompanham a pessoa por toda a vida.”
Segundo Humberto, o crescimento do Futebol 7 Society nas periferias brasileiras reforça justamente esse papel social. Em muitas comunidades, as arenas tornaram-se espaços seguros de convivência, oferecendo alternativas ao tempo ocioso e aproximando crianças e adolescentes da educação, da cidadania e de novas oportunidades.
“Hoje, o esporte salva crianças. Salva famílias. Salva gerações. Nem todos vão se tornar atletas profissionais, mas todos podem sair dali pessoas melhores. Esse talvez seja o maior resultado que o Futebol 7 Society pode entregar.”
Modalidade avança no alto rendimento
O Futebol 7 também passou por um processo de profissionalização. Atualmente, há campeonatos estaduais e nacionais, categorias de base, torneios femininos e competições internacionais realizadas de acordo com regras padronizadas.
A modalidade mantém características próprias. As partidas são mais curtas, as substituições são frequentes e o espaço reduzido exige decisões rápidas, intensidade e participação constante dos jogadores.
Sob a liderança de Sangiovanni, a FIFOS atualizou o livro internacional de regras e ampliou a atuação institucional da entidade. A federação também mantém registro junto ao Ministério do Esporte, requisito que permite a apresentação de projetos por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.
De acordo com dados institucionais da CBSS e da FIFOS, o setor reúne aproximadamente 6 mil campos no país, milhares de árbitros formados e uma extensa rede de competições. As entidades também estimam a existência de mais de 15 milhões de praticantes e de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos associados à modalidade. Os números, no entanto, são estimativas do próprio setor.
Quase quatro décadas depois de sua criação, o Futebol 7 mantém a proposta original de adaptar a paixão brasileira pelo futebol à realidade das cidades. Ao mesmo tempo, consolida-se como instrumento de inclusão, atividade econômica e porta de entrada para crianças e jovens que encontram nas quadras de society o primeiro contato organizado com o esporte.
